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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um rio que mudou meu curso


Hoje me pus a pensar em que momento eu comecei a me interessar pela arte. Melhor: em que momento eu comecei a me emocionar com a arte e pela arte. Qual a lembrança mais remota desse sentir tão quase dor, essa vontade perigosa de viver-criar-viver urgentemente. Porque, desenhar, toda criança desenha e eu já devia desenhar também, desde o jardim da infância na British School. Mas a necessidade, a tristeza que não se sabe de onde, a maturação lenta e dolorosa da imagem se formando ...na mente? no coração que dispara? na alma? no corpo todo?
E a lembrança veio inteirinha, viva.
Minha tia e madrinha estudava canto com um certo professor Talbat. As aulas eram no apartamento dele , creio que em Copacabana. E, às vezes, eu a acompanhava. Eu tinha por volta dos dez anos. Penso hoje que não devia ser um programa dos mais atraentes para uma menina da minha idade, que adorava praia, sentar quieta num sofazinho, por uma hora e meia, ouvindo a tia treinar as escalas, os trinados, e cantar umas canções incompreensíveis. O que me animava no início, eram as pastilhas de alcaçuz que ela chupava antes das aulas para clarear a voz, como ela dizia. Vinham numa caixinha que abria feito uma gavetinha. Eram pretas, com uma textura de jujuba, e na forma de um búzio. Às vezes ,em outras ocasiões, eu lembrava daquelas pastilhas e pedia que ela me desse uma. Jamais. Só ganhava uma, ao acompanhá-la às aulas de canto. Eram importadas e raras. E não eram balas, me dizia.
Até que um dia, eu reparei num quadro que tinha na parede da sala do professor Talbat. Era uma tela não muito grande, de uma paisagem. Como se o pintor estivesse em cima de um morro e pintasse o rio que corria lá embaixo. Esse rio era margeado , dos dois lados, por uma floresta fechada. O horizonte sugeria um fim de tarde sereno, com céu azul pálido. O rio fazia uma curva leve para a direita e se embrenhava na mata novamente. Não lembro em qual da vezes, se da segunda, terceira ou quarta ,em que sentei naquele sofazinho, eu percebi o quadro. So sei que, a partir do momento em que eu tomei consciência dele, as idas às aulas de canto do 'Messiê' Talbat eram momentos esperados com ansiedade. Para estar perto daquela imagem. Porque, enquanto o 'Messiê' tocava piano e minha tia, que tinha uma bela voz de contralto,cantava, eu viajava naquelas águas , às vezes num barco à velas, às vezes percorrendo a pé as margens sombrias e frias, os pés úmidos ao pisar as folhas caídas. Principalmente me intrigava o que haveria depois da curva. Um castelo em ruínas. Uma cachoeira caindo em precipício. Um príncipe a cavalo. Um pirata invencível.Tribos de índios. Uma praia com um navio naufragado. Imaginava que, quando chegasse lá , na curva do rio, já seria noite, porque meu barco nunca era a motor e, às vezes, era mesmo uma canoa a remo.
Aquela pintura me fazia habitar histórias incríveis, repletas de imagens, uma capacidade de inventar, criar e recriar, que até então eu deconhecia por completo. Ainda por cima, com a incrível trilha sonora de belas árias, acompanhadas pelo piano correto do francês Talbat. Eu não podia mais existir sem isso. Pra mim, aquele era o quadro mais lindo do mundo e ficar muito tempo distante dele era como se eu perdesse o dom de imaginar tantas aventuras. Por isso me lembro tão bem dele, até hoje. Como se eu o tivesse visto ontem, na parede em frente ao sofazinho, no apartamento de Copacabana. Olhava para ele o tempo todo que duravam as aulas, também para trazê-lo para dentro de mim, para que ele se tornasse parte de mim, para que ele se transformasse na fonte eterna daquele sentimento experimentado. Sentimento de arrebatamento estático, de um quase transe, quando não me importava mais nada que não fizesse parte daquela minha vida dentro da imagem do rio correndo no meio de uma floresta verde e sombria. A paixão da alma de uma menina de dez anos.
A partir dessa idade é que passei a pedir caixas de lápis de cor e cadernos de desenho, fora do material escolar. Minha tia e madrinha foi quem me deu uma caixa enorme de Caran D'Ache e um belo caderno de papel canson, com uma capa lisa preta. Achei chique aquela capa lisa preta. Digna de artistas.
Foi então que descobri que a Arte, em todas as suas formas, me conectava com o que eu sentia diante da pintura da casa do professor de canto. O que eu sentia, continuo sentindo ainda hoje, às vezes com um filme, com uma música,com um livro e quando crio textos , imagens, desenhos, pinturas. Ainda hoje, me sinto em perigo.
O que eu sentia, ainda não sei explicar.
"Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros.
O que se sente não se pode comunicar.
Só se pode comunicar o valor do que se sente.
Só se pode fazer sentir o que se sente. (...)
O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma.
Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.
Sentir é compreender.
Pensar é errar.
Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela.
Compreender o que outra pessoa sente é ser ela.
Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica.Deus é toda gente."
Fernando Pessoa

sexta-feira, 1 de maio de 2009

The Garden of Love



Foi no Metropolitan de Nova York. Eu estava sozinha, feliz da vida que os amigos tinham resolvido fazer compras em China Town e eu podia, enfim, ficar horas no museu, sem ter que explicar nada pra ninguém, somente escrevendo no meu diário. Reproduzo aqui uma das páginas:“Quando me virei, estava lá: uma tela do Kandinsky, das primeiras abstratas, “The Garden of Love”. Na mesma sala , já tinha apreciado o lindíssimo “Dois Irmãos” do Picasso, em tons de um rosado velho , um “Nú” fantasticamente sanguíneo do Modigliani e um Matisse celestial. Mas , diante do Kandinsky, tudo mudou: fui passando, lentamente, de uma percepção exterior para um entendimento interior profundo, um giro quase imperceptível de consciência, mudando meu centro de gravidade em direção ao espiritual, à compreensão da Beleza em sua essência, o silêncio primordial no meio do ciclone, onde reina a mais absoluta das pazes. 'The GArden of Love - Improvisation n. 27' era o próprio 'O Amor que move o Sol e as outras Estrelas', de que fala Dante na 'Divina Comédia' , equalizando ritmos . É nesse universo que eu me reconheço habitante. Este quadro me mostra meus rastros , minha trilha, e me ilumina onde quer que eu esteja com um brilho de mil sóis, faz boiar na minha boca um sorriso arcaico, arrasta caravanas tilintantes e rubras pelas dobras das rugas da minha testa, e acelera em slow motion as patas do tigre ancestral adormecido atrás do meu coração. "
AnaCrisNadruz

Filmes que estou me lembrando agora

  • "Melancolia"( Lars von Trier)
  • "O Jardineiro Fiel" ( Fernando Meireles), "Apocalypsis Now" ( Coppola), "Amarcord" (Fellini)," Cidade de Deus" ( Fernando Meireles), "Lavoura Arcaica" (Luis Fernando Carvalho),"A Noite dos Desesperados" ( Sidney Pollack),"Excalibur"( John Borman), "Jules et Jim" ( François Truffaut), "Roma" ( Fellini),"Blow Up"(Antonioni),"Salam Cinema!"(Makhmalbaf),"Babel" (Alejandro Iñarritu),"Diários de Motocicleta" ( Walter Moreira Sales)
  • "Volver"(Almodóvar), "Hable con Ella" (Almodovar), "Carne Trêmula"(Almodóvar), "Ata-me' (Almodóvar), "Todo Sobre mi Madre"(Almodóvar), "Barcelona" ( Woody Allen), "Match Point" (Woody Allen), "Manhattan" (Woody Allen)
  • Les Misérables 2019 (Ladj Ly) , Bacurau (Kleber Mendonça Filho) , Parasita (Bong Joon-ho), Coringa (Todd Phillips)
  • Onegin (Martha Fiennes)

Livros que estou me lembrando agora

  • " A Prosa do Observatório" ( Julio Cortazar), "Passeio ao Farol" ( Virginia Woolf), "Budapest" ( Chico Buarque),"Hamlet" ( Shakespeare),"O Segredo da Flor do Ouro"(Jung),"A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen"(Eugen Herrigel), "I Ching o livro das mutações"(tradução de Richard Wilhelm),"Bhagavad Ghita"(tradução de Ramananda Prashad),"As Mil e Uma Noites'( tradução de Mamede Moustapha Jarouche),"História da Arte Italiana 1,2,3"(Giulio Carlo Argan),"Carnaval no Fogo" (Ruy Castro),"De Todos os Fogos o Fogo" (Julio Cortazar), "El Libro de los Seres Imaginarios"( Jorge Luis Borges),"Cartas a Theo' ( Vincent Van Gogh), "Noa Noa "(Paul Gauguin),"O Paraiso na Outra Esquina" ( Mario Vargas Llosa), " A Invenção da Liberdade"( Satarobinsky)
  • "Evangelho Segundo Jesus Cristo"( Saramago), "Ensaio sobre a Cegueira"(Saramago), O "Leite Derramado" (Chico Buarque), "As Núpcias de Cadmo e Harmonia" (Roberto Calasso)," Mulheres, Militância e Memória"( Elizabeth X. Ferreira), "Logações Perigosas" ( Chauderlos de La Clos),"Drácula"( Bram Stocker),"Do Espiritual na Arte" ( Wassily Kandisnky)