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sábado, 22 de outubro de 2011

La Cocagne, A Cocanha, The Cockaigne,A Cocaína

"Este país não foi até o presente conhecido por ninguém, salvo pelos patifes e velhacos que o descobriram primeiro. Todos aqueles que quiserem render-se a ele, devem ser intrépidos e bem preparados para enfrentar grandes coisas porque, diante de si, estará uma muito alta e muito larga montanha de massa, através da qual eles deverão abrir caminho comendo antes de chegar no lugar, muito famoso e muito bem conhecido dos mal intencionados e dos que deixaram para trás toda a virtude e honorabilidade. Porque não há maior vergonha neste pais da Cocanha que se comportar virtuosamente, racionalmente, honradamente e com boas maneiras, e de amar ganhar sua alimentação com suas próprias mãos. Aquele que se mantem virtuosamente e honestamente é isolado de todos e, finalmente, banido do país da Cocanha".
Tradução livre de um texto em francês, originalmente publicado em flamengo na época de Bruegel, séc. XVI.

A Terra da Cocanha - Bruegel
Este mito da Terra da Cocanha surge recorrentemente, a partir da Idade Média, em épocas de extrema privação alimentar, de doenças e de pestes. Neste mundo imaginário, a fartura chega aos limites de um fastio nauseante e imobilizante, que obtusa os sentidos e aniquila as vontades. Pelo texto acima, depreendemos que o mito traz embutido um discurso moral: num tempo em que a maioria se debate entre a fome e a sobrevivência, os velhacos e patifes que habitam a Terra da Cocanha, são os que consomem sozinhos o que daria para saciar a fome de muitos, na ânsia compulsiva de botar para dentro, de guardar em si, e para si, o máximo de alimento possível.
mangual
 Bruegel, o Velho (Breda, 1525/1530 / Bruxelas / 9 de setembro de 1569), pintou uma imagem sobre o tema, em  óleo sobre madeira em 1567, que  hoje se encontra na München Alte Pinakothek. Nela podemos ver um camponês um cavalheiro e um letrado que estão prostrados no chão, embaixo de uma árvore, cujo tronco é circundado por uma mesa posta. Cada um deles  repousa a cabeça sobre uma base diferente: o nobre, em cima de uma almofada, o letrado sobre um casaco de pele e livros, e o camponês sobre um mangual ( um instrumento através do qual se malha cereais para debulhá-los.). O escudeiro, ao lado esquerdo, vestido com uma armadura, monta guarda sob as provisões e espera que algo lhe caia na boca aberta. À direita, vemos a montanha de papa sendo atravessada por alguém que a vai deglutindo para abrir caminho. As cercas são feitas de salsichas, os gansos aparecem já assados, os porcos, já prontos para serem cortados, exibem as facas no couro, e grandes tortas formam o que aparentam ser cactos.
Cockaigne - Vincent Desiderio
O mito retorna no início do século XXI, na obra "The Cockaigne" ( não por casualidade há semelhança fonética com Cocaine) pintada meticulosamente em óleo sobre uma tela de aproximadamente 4,60cm por 3,35cm, entre 1993 e 2003, que pertence ao acervo do Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Washignton, ( http://hirshhorn.si.edu/ ) , por Vincent Desiderio ( Philadelphia, EUA,1955).
"A versão de Vincent Desiderio é uma crítica ao que ele chama de "bulimia cultural" - nosso consumo compulsivo de imagens que só nos deixa mais famintos de mais imagens.É também um comentário sobre o procedimento da pintura no século XXI: diante de tal pletora de estilos e linguagens formais, como é possível criar algo novo, alguma coisa distintamente relevante ao nosso próprio tempo?"( por Bia Fineman do New Yor Times)
Enquanto alguns detectam sinais que a festa acabou, simbolizando o fim da pintura, Desiderio nega que ela carregue uma mensagem pessimista. "Eu pintei a terra devastada", ele disse, "transformando-a em  colheita." O próprio fato de que ele trabalhou tão longa e arduamente para criar a obra, sugere que a pintura está viva e bem. O trabalho em si já demonstra, ele observou, "o poder da pintura."  Desiderio fala apaixonadamente sobre o dilema enfrentado pelos artistas contemporâneos, confrontados por uma infinidade de estilos e linguagens,  frequentemente em perigo de serem oprimidos por tantas informações sobre arte. Desiderio afirma que há uma nova onda de interesse pela pintura, particularmente a pintura séria, porque" a pintura é um meio que ressalta a voz individual num momento em que a maioria das áreas de expressão são dominadas pelo tipo de estilização genérica ou manipulação genérica de materiais encontrados .... A pintura é um santuário para a voz individual, num momento em que a individualidade tornou-se tão manipulada como os materiais  que a maioria usa em arte hoje em dia." 

Ceci n'est ce pas une pipe - Magritte


Desiderio se baseou na sua própria coleção de livros de arte para reproduzi-los na tela. As escolhas de como eles apareceriam na pintura - em foco ou fora de foco, obscurecidos por sombras ou reflexos - foram guiadas por sua significancia para ele, ao invés de por uma percepção acurada. "Mesmo que esta cena realmente existisse, esta não seria a maneira como uma câmera a veria", ele disse.
O tampo da mesa inclinado com louça espalhada e restos de um banquete, relaciona-se de imediato à pintura de Bruegel, porém com uma tigela vazia ao centro, esse vazio do recém consumido. Ao contrário da Cocanha de Bruegel, estas tigelas não se tornarão novamente cheias. O que parece não ter fim é o mar de livros que rodeiam a mesa e que representam seis séculos de arte ocidental, como os restos de uma festa realmente grande. Nas páginas destes livros virtuais - ironia!- ele reproduz meticulosamente, em versões miniaturizadas, suas obras favoritas de artistas que, numa passada rápida de olhos, podemos identificar: Velázquez, Van Eyck, Ribera, Vermeer, Courbet, Whistler, Manet , Matisse, Henri Rousseau, Giacometti, Picasso, Magritte, Mondrian, Whistler, Cassatt, Gabo, Motherwell, entre outros.
Academy (detalhe do tríptico)- Desiderio
Cocanha, Cocagne, Cocuña, Cockaigne , Cocaine. Tudo nos remete à compulsão do consumo por imagens, comida, produtos, poder, grana, que desaba sobre nós num vórtice vicioso, cornucópia infinita de vanitas em que se trasnformaram as livrarias, os shopping centers, os condomínios, as escolas, os restaurantes,os mp3, os mp4, os computadores, os celulares e todas as suas parafernálias, as religiões e as miríades de informações.
" O Sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia?" , e o Caetano nem podia sonhar com tudo o que se veicula hoje. Ou como escreveu pra mim a Lena Amorim a respeito da obra do Desiderio: " Tanta oferta, tanta fartura, quanto muito! Quem consegue saborear e digerir? Fastio - doença do excesso."
                         

sábado, 24 de setembro de 2011

Melancholia - de Dürer a Lars von Trier

"POR QUE RAZÃO TODOS AQUELES QUE FORAM HOMENS DE EXCEÇÃO NO QUE CONCERNE À FILOSOFIA, À CIÊNCIA, À POESIA OU ÀS  ARTES, FORAM MANIFESTAMENTE MELANCÓLICOS, E ALGUNS MESMO A PONTO DE SEREM ATINGIDOS POR MALES ONDE A BILE NEGRA ERA A ORIGEM?" (Aristóteles)

Madalena - George de Latour





Reconhece-se a Melancolia pela sua eterna postura codificada na  antiguidade grega. Das estelas funerárias do século Vac ao retrato do dr. Gachet de Van Gogh, a atitude não muda muito. São Jerônimo ou Madalena, retratos de cavalheiros, autoretratos de artistas, a pose é semelhante. As costas curvadas, a cabeça inclinada, o olhar voltado para o chão, perdido em devaneios ou implorando em direção ao espectador. Uma das mãos sustenta o maxilar ou a fronte. O universo é plumbeo - e o chumbo é um metal saturnino - o corpo    petrificado, a alma enclausurada sob o peso das lembranças, mágoas, nostalgias. Lassitude e concentração.
  
A história da melancolia começa no século IV ac, na Grécia. É lá que aparece pela primeira vez a palavra melankholia que é formada pela associação de duas palavras: melan = escuro e kholia = bile. Foi traduzida para o latim Melancholia, a partir do século IIIdc .
Os Pensadores gregos da época, após determinarem as leis que regem a natureza, voltaram-se para o indivíduo, utilizando os princípios desenvolvidos para a natureza. Como ela compreende quatro estações e a matéria quatro qualidades fundamentais - calor, frio, seco, úmido - as quatro estações do ano, os quatro pontos cardeais, os quatro elementos  - água terra fogo e ar -, o Homem, pensaram eles, deve também estar constituído por quatro elementos. Então, no século IVac , num escrito intitulado ' Da Natureza do Homem', Hipócrates isolou no corpo humano quatro 'humores': três deles seriam substâncias residuais provenientes de parte dos alimentos não digeridos pelos corpos. A bile negra (melan kholia) proveniente do baço, a bile amarela proveniente do fígado, a fleuma das linfas e o sangue. A saúde se define em consequência do equilíbrio dos quatro humores e, a doença, do predomínio de uma dessas substâncias. 
A melancolia designa, por um lado, uma substância natural do corpo mas, por outro, a doença ligada ao excesso desta substância. O equilíbrio entre a bile negra aquecida ( que geraria o furor) e a bile negra esfriada (que causa a prostração), a temperatura média, poderia engendrar um estado de inspiração genial. A melancolia inspirada não seria patológica.
Com a chegada do Cristianismo alguns anacoretas em retiro no deserto experimentavam uma espécie particular de melancolia conhecida como ACEDIA, palavra derivada do grego AKÊDIA que significa negligência, indiferença ou tristeza profunda, abatimento, lassidão. Também conhecida como 'demônio do meio dia', passa a figurar como o sexto dos, na época, oito pecados capitais.
Saturno é o planeta associado à Melancolia. Essa associação vem dos astrólogos árabes que, no século VIIdc traduzem e interpretam o pensamento grego. A lenta evolução de Saturno no céu, sua influência restritora sobre as criaturas, a demora que ele causa, seriam características melancólicas. Porém, no século XII, esta tradição astrológica encontra uma outra tradição que se fundamenta sobre a ligação entre os sete planetas conhecidos e os sete dons do Espírito Santo. Esta nova associação deu a Saturno o maior dos dons- a Sabedoria.
Em 1514 o artista alemão Albrecht Dürer criou a gravura em metal 'Melancholia I' que Moacir Scliar em seu livro 'Saturno nos Trópicos' assim descreveu:
'Representada como uma mulher de asas  potencialmente capaz de altos voos intelectuais. Mas ela não está voando. Está sentada imóvel, na clássica posição dos melancólicos, com o rosto apoiado em uma das mãos (...) a cabeça lhe pesa, cheia que está de mórbidas fantasias. Os músculos da nuca, que deveriam manter erguida aquela cabeça, de há muito cansaram.No ansioso esses músculos estão sempre tensos; é uma tensão arcaica, a mesma que faz o herbívoro erguer a cabeça alarmado quando fareja um carnívoro. Na Melancholia I,às voltas com demônios interiores, a ameaça externa, real ou imaginária, não importa muito. Permanece imóvel como se lhe faltasse ânimo para movimentar-se ou (...) a figura encontra-se em intenso transe visionário(...).Sua fronte está coroada com plantas aquáticas destinadas a combater a secura que, como vimos, é uma das características dos melancólicos.
Junto à Melancolia, um cão adormecido. Dizia-se então que o organismo do cão é dominado pelo baço (...). Na gravura ainda há uma profusão de objetos usados no cotidiano, em vários ofícios e na ciência.: uma balança, uma ampulheta, uma sineta, martelo, serrote, pregos. Aparentemente eles não estão ali para serem usados; ao contrário, sugerem imobilidade - a mesma imobilidade que transparece na  própria Melancolia e no sono do cão. O tempo está congelado: os dois compartimentos da ampulheta contém a mesma quantidade de areia. Uma tábua numérica cujos números somados dão sempre o mesmo resultado, na horizontal ou na vertical - uma alusão à geometria, muito valorizada então como fonte de conhecimento não apenas teórico. As chaves na cintura e a bolsa no chão - chave significa poder e a bolsa, riqueza. Estas são anotações do próprio Dürer.
Ela tem tudo isso mas falta disposição para ir em busca de novos espaços. A bolsa remete à avareza característica tradicionalmente atribuída aos melancólicos. Aliás, a Melancolia se apresenta com o punho cerrado, o PUGILLUM CLAUSUM que até hoje é um símbolo clássico da avareza. Walter Benjamin chama a atenção para a pedra. Dura e fria, é um símbolo da melancolia e da loucura também. No final da Idade Média havia um procedimento para tratar os loucos: fazia-se uma incisão no crânio do doente 'abrindo-lhe' a cabeça. Depois era lhe apresentar uma pedra supostamente dali retirada, a pedra 'causadora da loucura'. Daí veio a expressão louco de pedra."
A gravura de Dürer surge quatro anos depois do aparecimento de um manuscrito que circulava nos meios literários alemães, o DE OCULTA PHILOSOPHIA, de autoria de um filósofo versado em ocultismo Agrippa de Nettesheim. Ali ele distingue uma bile branca, à qual ele atribui o entusiasmo sucetível de estimular a criatividade e geraria três epécies de melancolia ligadas, seguindo uma ordem ascendente, às três faculdades da alma: a imaginação, a razão e o espírito.
A primeira, a Melancholia Imaginatoris seria o lugar de gênios de um tipo inferior. Ela governaria os homens mais incultos, aos quais ela permitiria o acesso a um status de pintor e de arquiteto. Ela reinaria também sobre as catástrofes naturais onde os cometas e arco íris seriam signos premonitórios.
A segunda, a Melancholia Rationis acompanharia os filósofos, os doutores e os oradores que, graças aos gênios intermediários, teriam acesso ao conhecimento pela razão. Os livros e tudo aquilo que demanda tempo e números pertenceria a esta segunda esfera melancólica.
A terceira, a Melancholia Mentis reuniria os espíritos mais elevados e a eles revelaria a lei de Deus. Na sua esfera de influênia, os cometas e os arco íris poderiam também anunciar a chegada de uma redenção final.
Na Melancholia I, Dürer coloca elementos citados por Nettesheim nas Melancolias 1,2 e 3, mas não cria obras individuais para cada uma delas. Com a obra de Dürer, a melancolia começou a tornar-se um sujeito autônomo, destacando-se de qualquer referência à teoria dos quatro humores ou temperamentos. Ela representa, antes de mais nada, uma mudança de paradigma. A melancolia já não é uma entidade médica, não é doença,não é pecado. É metáfora.

John Everett Millais
Lars von Trier criou uma obra cinematográfica belíssima com o tema. Seu filme Melancholia compreende esse universo metafórico e faz associações as mais variadas, sucitando questões ao mesmo tempo atemporais e contemporâneas, como inexorabilidade, finitude, controle e a falta de, ritualização, hipocrisia, inocência e sabedoria. O filme divide-se em duas partes: Justine e Claire, nomes das duas irmãs que protagonizam o drama. Justine (Kirsten Dunst) é linda e está se casando. Claire (Charlotte Gainsbourg) nem tão bonita, mas eficiente e controladora, é quem organiza a festa de casamento da irmã.  O Diretor usa a festa para apresentar seus personagens: A Noiva Justine, o Noivo  Michael, a Irmã Claire, o Cunhado John,o Sobrinho Leo, a Mãe da noiva Gaby, o Pai da noiva, o Chefe da noiva, o Assistente do chefe, o Mordomo da casa, o Cavalo Abraham. Na chegada dos noivos - atrasados - à festa, já notamos um mal estar que vai se tornando cada vez mais incômodo à medida que a história avança. Claire mostra-se excessivamente preocupada com rituais , horários e com o comportamento de Justine, procurando controlar tudo e manter as aparências. John é o rico proprietário do castelo situado em meio a um campo de golf, onde a festa acontece. Repete várias vezes que está gastando uma fortuna e, em conversa particular com Justine, menciona que eles tem um acordo: ela vai ser feliz. Ela diz que está tentando. Michael é, seu nome sugere, bom como um anjo,  de uma pureza quase naífe.  Aparentemente não está a par completamente do estado que vai tomando conta  de sua noiva : a profunda melancolia. Ao que parece, a família 'acha uma solução' para Justine, casando-a com aquele marido tão gentil e capaz de 'cuidar' dela. Justine chega na festa radiante e linda. É a primeira a perceber uma 'estrela' diferente no céu, que John diz ser Antares, mas que na verdade, é um planeta chamado MELANCHOLIA, que esteve escondido atrás do sol, e que agora se torna visível.( Há um planeta que se anuncia na gravura de Dürer também. E assim como na gravura de Dürer, todo o conhecimento e tecnologia representados pelos instrumentos - compasso, serrote, pregos, ampulheta, a esfera perfeita, o poliedro, a tábua dos números - vai ser inútil, o telescópio, o automóvel, a limusine, o carrinho de golf, o computador , o conforto e a segurança do próprio castelo, também serão.)
Durante a festa, a mãe das irmãs , Gaby, faz um discurso devastador. A partir daí, Justine inicia lentamente um processo melancólico. Já nada mais importa. Nem festa, nem casamento, nem marido, nem a promoção que o chefe dela anuncia, elevando-a de copidesquista à diretora de arte. Esse chefe representa os piores vícios de uma sociedade hipócrita, de exploração feroz das pessoas indistintamente. Ele tem um assistente chamado Tim a quem ele submete um joguinho sórdido. Esse rapaz, protótipo do jovem medíocre e ambicioso, aceita. O pai das irmãs é um bobo alegre, que resolve chamar todas as mulheres de Betty, inclusive a filha Justine, quando ela mais precisa dele. Humilha o mordomo - que no filme é tratado por Padrinho - que por sua vez, aceita a humilhação sem reclamar.A inocência está representada pelo sobrinho Leo, para quem Justine , a 'tia quebra aço', vai ser fundamental no final da história. E o instinto é Abraham, o cavalo.
Há que se destacar a música que funciona quase como um outro personagem : 'Prelúdio de Tristão e Isolda', de Wagner.

Após um diálogo entre as duas irmãs numa sala reservada onde Claire cobra o compromisso de felicidade da irmã, Justine, ao ficar sozinha, angustiada, troca todas as páginas dos livros de arte expostos nas prateleiras das estantes. As páginas exibem quadros de Malevich, abstrações geométricas ordenadas, claras, de rítmo dinâmico e progressivo. Nervosamente Justine vai trocando por imagens de Brueghel ('Os Caçadores' e 'A Cocanha' ), Caravaggio ('Davi e Golias'), John Everett Millais ('Ophelia') e Jeronnymus Bosch ( detalhe do tríptico 'O Jardim das Delícias Terrenas', painel do meio.)

Suiprematismo - Malevich
Suprematismo - Malevich


Cocagne - Brueghel
 A Cocagne é mito que surgia recorrentemente na Idade Média toda vez que as sociedades se viam diante de períodos de fome , morte e peste.  Era um lugar imaginário onde havia fartura inacabável até o fastio. Tudo era comestível: as árvores e as cercas do lugar eram feitas de bolos e pães. E as pessoas comiam tanto que acabavam prostradas, acometidas de uma 'acedia' imobilizante. Para se chegar a esse lugar, tínha-se que abrir caminho comendo uma montanha de massa. Tudo isso, Brueghel representou magnificamente no seu quadro. E a escolha dele pelo diretor do filme, é bastante feliz se o compararmos à festa do casamento e, mais ainda, à sociedade de luxo e consumo da Europa atual, cuja economia já começa a dar sinais de saturação e declínio.



CAçadores - Brueghel

A imagem ameaçadora destes caçadores chegando em silêncio sorrateiro na neve é a primeira a aparecer numa espécie de prólogo do filme. Ao som do 'Prelúdio de Tristão e Isolda', de Wagner, a imagem vai se deteriorando lentamente. É um mundo que acaba. Acabou no século XVI para os contemporâneos de Brueghel e Dürer, onde todas as certezas que tinham foram substituídas por outras, muito mais inquietantes, que viriam a se consolidar após a Reforma, os Descobrimentos, as lentes, os espelhos (lunetas e câmaras escuras) e a consciência dos espaços infinitos . E acaba agora, no nosso século, segundo von Trier, ao queimar sob o impacto do planeta Melancholia com a Terra, quando tudo irá ser destruído, inclusive toda a produção artística e cultural da humanidade. Consciência brutal da inutilidade de tudo. Metáfora de um momento histórico onde, outra vez, tudo são incertezas.

det Jardim das Delícias - Bosch
Um detalhe do tríptico 'O Jardim das Delícias Terrenas', de Jeronymmus Bosch aparece também em destaque. No meio de tantas figuras inquietantes, há um pequeno ser humano , bem no centro, assumindo a pose clássica da melancolia. Assim como Justine, que vai se tornando cada vez mais melancólica no meio da fartura e de todas aquelas 'delícias terrenas'.



Davi e Golias - Caravaggio

Esse trágico Caravaggio, cuja cabeça do Golias é um auto retrato segundo alguns autores, também figura entre as imagens escolhidas por Justine para ficarem expostas nas prateleiras. A cabeça do gigante cortada por um jovem que a observa com um misto de piedade e desdém, é uma das últimas obras do artista, cujo tema da decapitação se torna fequente a partir do momento em que ele é condenado à morte por enforcamento.




A referência à obra de John Everett Millais nesta cena é muito clara: Justine como uma moderna  Ophelia que, de certo modo, também se suicida ao entregar-se à depressão-acedia-melancolia-spleen-morteemvida. Sua imagem radiante do início, vai se desfazendo, apagando aos poucos a maquiagem, desmanchando o cabelo, rasgando o véu, tirando o vestido que, de lindo, passa a ser um enorme estorvo que a impede de caminhar. Um vestido que também se assemelha ao vestido do anjo na gravura de Dürer.Quem renasce é outra Justine,serena, segura e generosa como um anjo da morte que segura nossa mão nos instantes finais, que nos abriga em mágicas cavernas de gravetos. Justine na forma da sabedoria de Saturno.

Melancholia - Cranach
 Há outros três quadros denominados Melancholia no século XVI. São posteriores à gravura de Dürer e são de Cranach. Cada um deles ilustra um dos três estágios da Melancolia como descritos por Agrippa Netesheim. Nos três, o anjo da melancolia está afiando um graveto, gesto que vai ser imitado por Justine e seu sobrinho Leo, quando ela propões que eles construam a caverna mágica.



A obra de Paul Delvaux, surrealista das décadas de 30 e 40 , não aparece no filme mas o clima das cenas está impregnado de suas imagens principalmente a cena em que Justine aparece nua iluminada pelo Melancholia.




Songe - Paul Delvaux

O filme é uma obra prima, na minha opinião. Inúmeras leituras enriquecem o entendimento: desde o significado dos nomes ( Justine - justiça - é a heroína de uma das obras mais famosas do Marques de Sade), Claire (clareza), John ( o que anuncia o  Apocalipse), até uma leitura sócio econômica de uma sociedade que está prestes a se defrontar com o fim dos tempos, o fim de SEU tempo, a mudança da era, a passagem para Aquário, que, ao contrário do que cantávamos nos anos sessenta, the moon is not in the 7th house, e a tolerância e o amor não estão no ar.

"Numa enchente Amazônica, numa explosão Atlântica, e a multidão vendo em  pânico, e a multidão vendo atônita, ainda que tarde, o seu despertar." Chico Buarque

Trilha sonora e algumas belíssimas imagens:
http://www.youtube.com/watch?v=QrcpxETbDxg

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um rio que mudou meu curso


Hoje me pus a pensar em que momento eu comecei a me interessar pela arte. Melhor: em que momento eu comecei a me emocionar com a arte e pela arte. Qual a lembrança mais remota desse sentir tão quase dor, essa vontade perigosa de viver-criar-viver urgentemente. Porque, desenhar, toda criança desenha e eu já devia desenhar também, desde o jardim da infância na British School. Mas a necessidade, a tristeza que não se sabe de onde, a maturação lenta e dolorosa da imagem se formando ...na mente? no coração que dispara? na alma? no corpo todo?
E a lembrança veio inteirinha, viva.
Minha tia e madrinha estudava canto com um certo professor Talbat. As aulas eram no apartamento dele , creio que em Copacabana. E, às vezes, eu a acompanhava. Eu tinha por volta dos dez anos. Penso hoje que não devia ser um programa dos mais atraentes para uma menina da minha idade, que adorava praia, sentar quieta num sofazinho, por uma hora e meia, ouvindo a tia treinar as escalas, os trinados, e cantar umas canções incompreensíveis. O que me animava no início, eram as pastilhas de alcaçuz que ela chupava antes das aulas para clarear a voz, como ela dizia. Vinham numa caixinha que abria feito uma gavetinha. Eram pretas, com uma textura de jujuba, e na forma de um búzio. Às vezes ,em outras ocasiões, eu lembrava daquelas pastilhas e pedia que ela me desse uma. Jamais. Só ganhava uma, ao acompanhá-la às aulas de canto. Eram importadas e raras. E não eram balas, me dizia.
Até que um dia, eu reparei num quadro que tinha na parede da sala do professor Talbat. Era uma tela não muito grande, de uma paisagem. Como se o pintor estivesse em cima de um morro e pintasse o rio que corria lá embaixo. Esse rio era margeado , dos dois lados, por uma floresta fechada. O horizonte sugeria um fim de tarde sereno, com céu azul pálido. O rio fazia uma curva leve para a direita e se embrenhava na mata novamente. Não lembro em qual da vezes, se da segunda, terceira ou quarta ,em que sentei naquele sofazinho, eu percebi o quadro. So sei que, a partir do momento em que eu tomei consciência dele, as idas às aulas de canto do 'Messiê' Talbat eram momentos esperados com ansiedade. Para estar perto daquela imagem. Porque, enquanto o 'Messiê' tocava piano e minha tia, que tinha uma bela voz de contralto,cantava, eu viajava naquelas águas , às vezes num barco à velas, às vezes percorrendo a pé as margens sombrias e frias, os pés úmidos ao pisar as folhas caídas. Principalmente me intrigava o que haveria depois da curva. Um castelo em ruínas. Uma cachoeira caindo em precipício. Um príncipe a cavalo. Um pirata invencível.Tribos de índios. Uma praia com um navio naufragado. Imaginava que, quando chegasse lá , na curva do rio, já seria noite, porque meu barco nunca era a motor e, às vezes, era mesmo uma canoa a remo.
Aquela pintura me fazia habitar histórias incríveis, repletas de imagens, uma capacidade de inventar, criar e recriar, que até então eu deconhecia por completo. Ainda por cima, com a incrível trilha sonora de belas árias, acompanhadas pelo piano correto do francês Talbat. Eu não podia mais existir sem isso. Pra mim, aquele era o quadro mais lindo do mundo e ficar muito tempo distante dele era como se eu perdesse o dom de imaginar tantas aventuras. Por isso me lembro tão bem dele, até hoje. Como se eu o tivesse visto ontem, na parede em frente ao sofazinho, no apartamento de Copacabana. Olhava para ele o tempo todo que duravam as aulas, também para trazê-lo para dentro de mim, para que ele se tornasse parte de mim, para que ele se transformasse na fonte eterna daquele sentimento experimentado. Sentimento de arrebatamento estático, de um quase transe, quando não me importava mais nada que não fizesse parte daquela minha vida dentro da imagem do rio correndo no meio de uma floresta verde e sombria. A paixão da alma de uma menina de dez anos.
A partir dessa idade é que passei a pedir caixas de lápis de cor e cadernos de desenho, fora do material escolar. Minha tia e madrinha foi quem me deu uma caixa enorme de Caran D'Ache e um belo caderno de papel canson, com uma capa lisa preta. Achei chique aquela capa lisa preta. Digna de artistas.
Foi então que descobri que a Arte, em todas as suas formas, me conectava com o que eu sentia diante da pintura da casa do professor de canto. O que eu sentia, continuo sentindo ainda hoje, às vezes com um filme, com uma música,com um livro e quando crio textos , imagens, desenhos, pinturas. Ainda hoje, me sinto em perigo.
O que eu sentia, ainda não sei explicar.
"Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros.
O que se sente não se pode comunicar.
Só se pode comunicar o valor do que se sente.
Só se pode fazer sentir o que se sente. (...)
O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma.
Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.
Sentir é compreender.
Pensar é errar.
Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela.
Compreender o que outra pessoa sente é ser ela.
Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica.Deus é toda gente."
Fernando Pessoa

sábado, 17 de abril de 2010

Jornal do Brasil - Cultura - Anna Maria Maiolino: É só barro – e também arte


Jornal do Brasil - Cultura - Anna Maria Maiolino: É só barro – e também arte

Anna Maria Maiolino: É só barro – e também arte

André Duchiade, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A nova obra da artista Anna Maria Maiolino pode ser definida de uma maneira bastante simples, apesar de ter relações com temas sofisticados. Trata-se de uma grande instalação com 3 mil quilos de argila modelada em um salão. Lá a matéria, que não passa pelo forno, desidrata, petrifica e depois vem a ser reciclada. A argila aparentemente segue padrões como blocos, cilindros e espirais. Há uma desigualdade inevitável entre as peças por terem sido geradas por pulsões diferentes. Apesar disso, a artista é prosaica ao falar sobre o próprio trabalho, que desde o início do mês está em exposição no Camden Arts Centre, em Londres.

– Para Anna, na verdade, é argila modelada. Não tenho nenhuma representação. Quero a presença da entropia, do trabalho realizado – conta a artista, referindo-se a si mesma na terceira pessoa.

Suporte muda, a força não

Nascida na Itália em 1942 mas vivendo no Brasil desde 1960, Anna é considerada pela crítica uma das maiores artistas brasileiras vivas. Já trabalhou com suportes variados como pintura, desenho, gravura e vídeo, mas desde o final da década de 1980 dedica-se principalmente à argila. Além da exposição Continuous, em Londres, prepara-se para uma grande retrospectiva (em outubro) na Fundação Antoni Tàpies em Barcelona, onde também já expuseram Lygia Clark e Hélio Oiticica. Além da nova instalação, a mostra em Londres reúne uma série de filmes produzidos ao longo de mais de 30 anos, de In-out, antropofagia, seu primeiro super-8, a Quaquaraquaqua, de 2005. De acordo com Anna, embora os suportes variem, a força que move as obras é a mesma.

– No nível da estética (uma palavra que ficou velha, prefiro o termo “poética”), as preocupações nascem de certos enfoques no seu interior, certas motivações psíquicas e subjetivas iguais. Um poema fala de maneira diferente de um vídeo. Quando se utiliza diferentes mídias, o discurso se alarga e fica mais rico.

A artista começou seus estudos formais de arte na Venezuela, para onde os pais imigraram antes de tentar a vida no Brasil. Desde 1958 expôs regularmente no país, e quando se mudou para o Rio seguiu aulas de pintura e xilogravura na Escola de Belas Artes da UFRJ. Nos anos seguintes participou de salões no Brasil e na Venezuela, ganhando prêmios e uma exposição individual em Caracas.

Em 1965, aproximou-se dos questionamentos do movimento conhecido como Nova Objetividade e assumiu como temas dominantes a condição feminina, o cotidiano e a política. São desse período obras com A espera, O herói e Glu-Glu-Glu, xilogravura que mostra um homem fazendo um banquete sobre uma privada.

– Era um momento muito bonito e especial, as utopias estavam no ar apesar dos militares – diz. – A política entra em questão quando me afeta. Meu trabalho não era sobre a ditadura, era sobre a vida.

Em 1968, naturalizou-se brasileira e mudou-se para Nova York com o marido, o artista Rubens Gerchman. Na cidade teve contato com artistas latino-americanos com propostas experimentais de linguagem e abandonou a representação. Voltou ao Brasil em 1972, onde vive desde então, primeiro no Rio e atualmente em São Paulo.

– Considero-me brasileira pela minha formação. Herdei toda a minha mensagem dos artistas mais pungentes e vivos da arte brasileira.

Sua produção a partir da década de 1970 se caracteriza pela diversidade de suportes, primeiro poesia e desenho, depois as mais variadas formas. A instalação Entrevidas, de 1981, consiste num espaço com o piso ocupado com 70 dúzias de ovos naturais de galinha, por onde os visitantes caminham como se estivessem num campo minado. A instalação foi propositalmente concebida num momento particular da vida política do país, da abertura democrática. A argila veio há cerca de 20 anos.

– Eu fazia então muitos desenhos com água, mas quis fechar um ciclo. Quando você vai para uma coisa tão imaterial como desenho com água, é preciso colocar os pés no chão. A argila é terra, o máximo da materialidade – explica.

A busca pela diferença e repetição no trabalho da artista tornou-se consciente em 1993, quando realizou Um, nenhum e cem mil, no Centro Cultural Banco do Brasil, exposição a respeito da identidade inspirada pelo livro de Pirandello. Engana-se quem pensa que a busca pelo tema foi algum filósofo francês:

– Só li Diferença e Repetição (considerada obra maior de Gilles Deleuze, de 1968) em 1997. Era como se eu visse meu pai na mesa, tivesse ilustrado o pensamento dele. Mas cheguei lá através da argila. Quando se está em contato com a matéria, ela ativa seu pensamento, faz com que se busque caminhos materiais. O pensamento acompanha.

17:54 - 17/04/2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Leiteira de Vermeer


Esse é o "meu" quadro. Se pedissem pra escolher qual pintura deveria sobreviver a uma hecatombe, eu escolheria esta, sem hesitar.Porque me transmite, no sentido supremo, a idéia de humanidade. De ser humano cuidando de seu trabalho com uma concentração quase religiosa, cuidando de produzir os alimentos mais sagrados (pão e leite) para si e para outros, uma vez que, pelos trajes, ela é uma criada. E a cesta à esquerda lembra que é preciso guardar. A lâmpada dourada ao lado dela, simboliza a luz interna, já que a luz divina, na sua forma solar, entra pela janela iluminando quase que misticamente a cena. No chão, o moedor do trigo, o simbolo do trabalho.E aquele silêncio próprio das obras do Vermeer que envolve tudo numa sacralidade atemporal.
Nem vou falar das cores...esse amarelo mostarda e o azul anil.
Sabe-se pouco sobre sua vida. Era protestante e converteu-se ao catolicismo para casar-se, aos 20 anos, com Catharina. Tiveram 11 filhos, dos quais 8 eram mulheres. As moças que aparece em suas obras eram, muito provavelmente, suas filhas, mesmo a moça do brinco de pérola. O romance com o mesmo nome que deu origem ao filme, é pura ficção. Moravam na casa da mãe de Catharina, onde o chão nem era de mármore como ele costuma representar em suas obras.Vermeer morreu aos 42 anos de um colapso, nas palavras de sua mulher. Escreveu ela que ele passou de saudável a morto em um dia. Os 11 filhos e as dívidas que se avolumavam, contribuiram definitivamente.Ficou esquecido durante aproximadamente 200 anos. Sua obra prima "A Arte de Pintar" foi vendida como sendo de outro pintor, seu rival de Hoock. Só em fins do século XIX seu valor foi resgatado.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Exposição "C'est la vie! Vanités, de Caravage à Damien Hirst"



A exposição "Vanitas, de Caravaggio a Damien Hirst" está acontecendo em Paris, de 3 de fevereiro a 28 de junho, no Musée Maillol.
Aqui, alguns trechos sobre as aulas que vou dar esta semana nos meus cursos.
As VANITAS não tiveram sempre o mesmo significado. Os artistas de antigamente insistiam em sobre o caráter efêmero da vida; os criadores atuais denunciam o absurdo do nosso mundo
As figuras mais representativas da VANITAS são o crânio e o esqueleto. Elas atravessaram os séculos em milhares de imagens., dos mosaicos romanos do século I, aos diamantes de Hirst.
A exposição do Maillol dá destaque a dois momentos da História da Arte: a arte barroca ( idade de ouro da VANITAS) e a arte contemporânea, quando parece que este grande tema clássico retorna com força.
Os antigos associavam o crânio da morte ao estóico ‘Memento mori’ (lembra-te que vais morrer), a outra face do ‘Carpe Diem’ (aproveite o dia), dos epicuristas.
Os orientais (China, Japão) eram mais moderados na expressão da impermanência das coisas do mundo. Primavam pelo tema mas de maneira mais alusiva. Somente o Ocidente cristão enaltece tanto a imagem da morte pútrida e ossuda.
No fim da Idade Média, as Danças Macabras refletiam o flagelo dos tempos - as guerras, a peste negra – sempre assegurando seu veredito igualitário: humildes ou poderosos, todos são iguais perante à morte.(...)
Ao redor do crânio, pintado a partir do século XVI com um realismo objetivo e anatômico, os pintores holandeses arranjavam alguns objetos em composições austeras. É que, à medida que as imensas riquezas chegavam ao porto de Amsterdam, estes objetos iam se espalhando pelos interiores burgueses. Pintados nos quadros, simbolizavam a impermanência, remetendo-se à simbologia do passar do tempo (ampulhetas, clepsidras, relógios), da fugacidade da juventude (flores e frutos), da brevidade da existência humana (velas acesas, taças cheias pela metade ou emborcadas), da fragilidade (vidros intatos ou rachados, bolhas de sabão), do caráter ilusório do mundo (os reflexos nos vidros e nos espelhos, as bolas de cristal, os utensílos de ouro ou prata.), da precariedade do poder (cetros,coroas,mitras), da riqueza (prata, objetos de luxo), do prazer (jogos, instrumentos musicais, cachimbos e tabaco, alimentos) todos ilusões, que a morte torna absolutamente vãos.
O saber, as ciências e as artes, simbolizadas pelos livros e os utensílios da profissão, também não escapam ao grande tribunal da VANITAS.(...)
Andy Warhol não resistiu ao tema e tornou a morte pop e multicolorida. Mas o genial Hirst, com a obra "The Love for God, Laugh!,de 2002, um crânio cravejado de diamantes, é quem representa melhor o nosso ambíguo tempo. Essa morte espetacular e faiscante, que nos oferece uma gargalhada bem
humorada e sarcástica, vencedora e provocante, torna-se a mais completa tradução da nossa cínica Vanitas contemporânea.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O quê Adriana Varejão tem a ver com Tarsila do Amaral?



Enquanto Tarsila propõe a deglutição antropofágica simbólica das culturas européias, Adriana Varejão a realiza por inteiro e consegue ser quase literal, com suas imagens perturbadoramente atraentes e sugestivas.


Tarsila cria o seu "Ser que Come" ( Abaporu, segundo o dicionário Tupi).

Adriana É o ser que come e nos convida, entre irônica e perversa, a comer também.
Duas digestões difíceis: a fase antropofágica de Tarsila e a obra de Ardriana. Indiscutivelmente necessárias, porém






"A Negra" oferece entediada o seu seio farto, seu leite, os afago, o
colo. "A Figura de Convite II" oferece, faceira, todo um cardápio variado de pés, mãos,torsos,cabeça -dos outros- e flores, em inocentes azulejos.
Duas mulheres brasileiras: uma paulista, outra carioca. Uma do tempo das guerras. Outra do temppo do terrorismo.


Duas atenções voltadas para um mesmo Brasil, incessantemente metamorfótico, que recusa a limpeza e a ordem dos hospitalares azulejos brancos. Que os conspurca por transgressão e repto. Que se espreguiça, depois, ao sol causticante.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Exposição sobre Caravaggio, nos 400 anos de sua morte

Tocador de Alaúde (São Petesburgo)



Nos últimos anos, muita pesquisa, estudos, exposições e palestras sobre a biografia artística de Michelangelo Merisi, dito o Caravaggio, confirmam o crescente interesse universal em torno dos momentos artísticos do pintor e seu papel fundamental dentro da história arte dos últimos quatrocentos anos. E este cenário é o clima em que a idéia de uma nova e ambiciosa exposição- mesmo na sua simplicidade - nasceu na SCUDERIE del QUIRINALLE, Roma, de 20 de fevereiro a 13 de junho. Uma exibição de imagens lineares e emocionante, imaginada segundo um critério absolutamente rigoroso, apresentada ao público de uma forma concisa, não antológica, centrada apenas nas obras "capitais", ou seja, apenas sobre as obras de Caravaggio historicamente reconhecidas. A opção de privilegiar a autografia segura excluiu , portato, a produção atribuída à sua oficina, assim como também foram colocados à margem, deixados momentaneaamente em suspenso,as "versões posteriores" e todas as questões em que o crítica do século XX, por diversas vezes enfrentou, e continua a fazê-lo, com opiniões nem sempre concordantes. O resultado final é uma forma coerente e rigorosa, que lança nova luz sobre as diferentes etapas do processo evolutivo da linguagem desenvolvida por Caravaggio: um percurso emocionante e cristalino, que purifica e exalta o carácter excepcional e único de sua obra. Em exibição entre as obras mais representativas do Lombardo, como a Cesta de Frutas (Fiscella) da Biblioteca Ambrosiana de Milão, O Baco da Galeria Uffizi, em Florença, David com a Cabeça de Golias, da Galleria Borghese, em Roma, Os Músicos do Metropolitan Museum de Nova Iorque, Alaúde do Museu Hermitage em São Petersburgo, o Amor Vencedor do Museu Staatliche, em Berlim e outras obras-primas dos museus mais importantes da Itália e do mundo, formam uma espécie de homenagem à singularidade própria da obra de Caravaggio, no ano dedicado a comemorar os quatrocentos anos após a morte do mestre.
Scuderie del Quirinale


A exposição na Scuderie del Quirinale surge, portanto, como um novo e apaixonado momento de reflexão, uma oportunidade única de penetrar a essência do artista "terrivelmente natural", em seu critério revolucionário e deslumbrante do naturalismo, a sua obstinada, embora dialética, deferência para com o real, irredutível a esquemas e à escolas, solitário na sua grandeza e poesia. O projeto, concebido para comemorar o quarto centenário da morte do grande artista é patrocinado pela Presidência da República, e nasce sob os auspícios e sob o comando da Superintendência para o Patrimônio Histórico, Artístico e Etno-antropológicos e pelo Polo Museológico da cidade de Roma.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Palácio Capanema é da CULTURA e da EDUCAÇÃO Petition




O Governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, manifestou a intenção de ocupar o Palacio Capanema, conhecido também como o prédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), com o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de 2016.

O argumento de que o prédio esatria sendo sub aproveitado desde a mudança da capital para Brasilia não se sustenta. Os 16 andares estão regularmente ocupados por órgaõs dos ministérios da Educação e da Cultura: as representações do MEC e do MinC, o IPHAN, a Funart, o Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional e a Fundação Palmares.

Este (des)propósito parece não estár levando em consideração o fato do prédio ser TOTALMENTE tombado pelo Patrimônio Histórico, interna e externamente. Nenhuma peça do mobiliário, por exemplo, pode ser alterada: tem que se manter o original ou uma cópia idêntica. O espaço interno é composto de compartimentos com lambris de divisórias que não podem ser substituídos.

O prédio é um marco importante na nossa arquitetura. Sua construção data de 1936 a 1945 e foi entregue em 1947 como sede do Ministério da Educação e Cultura. Foi construído sobre o risco do Arquiteto Le Corbusier por uma equipe de jovens arquitetos modernos: Lucio Costa, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos, Affonso Eduardo Reidy,o estágiário Oscar Niemeyer e o paisagista Burle Marx. Os painéis de azulejo (foto) são criação de Cândido Portinari. E sempre esteve ligado à Educação e à Cultura, apesar de algumas ameaças de descaracterizá-lo como agora. Em 2008 houve até uma tentativa de transformá-lo em sede do DETRAN. Todo o tesouro artístico que ele abriga (painéis de azulejo e painéis em tinta a óleo de Portinari, pinturas de Guignard, Pancetti, esculturas de Bruno Giorgi e Lipchitz, etc.) bibliotecas, auditórios, salões e jardins ainda correm o risco de não mais servirem ao propósito cultural a que foram destinados.

Contra esse projeto, corre na internet uma petição do deputado Molon ( Partido dos Trabalhadores/RJ) que será encaminhada diretamente ao Presidente da República. Eu já assinei e estou repassando por email, Facebook, Orkut e Twitter.

sábado, 10 de outubro de 2009

Os nossos Vazios de Todo Dia


Rachel Whiteread é uma artista inglesa de 46 anos. Yayoi Kusama, também artista plástica, japonesa, está na casa dos 80. À primeira vista, nada em comum entre elas, nem no trabalho das duas. Mas, se analisarmos um pouco mais, à sua maneira, cada uma delas preenche o vazio de forma diversa. A questão na verdade , é esse imenso vazio. Para Rachel, o que importa é o vazio entre as coisas. Lembra a música do Gil: "É sempre bom lembrar, que um copo vazio, está cheio de ar". Usando a modelagem como base de trabalho e pensamento, ela coisifica o vazio entre as coisas. Os vãos das cadeiras acabam por se tornar forma, através dos moldes em gesso , concreto ou resina. Indo muito além do pensado, ela tira moldes de casas inteiras por dentro, casas dos subúrbios de Londres, que vão ser derrubadas. Casas vitorianas de outra época, uma época que vai se extinguindo a cada dia que passa. Ela perpetua não a casa, mas esse fantasma que é o vão das coisas, dando forma à ausência da construção externa, pois são as paredes e janelas e portas internas que nos é dado ver pelo processo de molde. O avesso exposto pelo lado de fóra. Seus monumentos ( podemos chamá-los assim?) não recebem tinta e mantém a cor acinzentada do material. Silenciosas presenças que nos remetem aos limites, à memória, à morte. Sua obra prima é um monumento aos judeus austríacos. Foi erguido em Viena, num lugar chamado Judenplatz, na forma de uma biblioteca " pelo avesso": as paredes que formam o bloco cúbico do monumento, foram moldadas em estantes de bibliotecas. Brancas. Livros em branco de histórias que não foram escritas, de 6.000 judeus austríacos mortos.

Yayoi Kusama poderia ter se tornado tão famosa quanto Andy Warhol. Frequntou o mesmo
grupo Pop Art da época. Porém, em 1975, voltou para Tóquio e se internou numa clínica

psiquiátrica onde está até hoje. Ela sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo e sua compulsão é por pontos e bolas. No Japão , ela talvez seja considerada a maior artista contemporânea. Continua trabalhando e preenchendo todos os espaços com seus pontos, criando, ao inverso de Rachel, um universo infinito, inteiramente preenchido de formas geralmente circulares e cores, muitas cores. Suas intalações com espelhos circulares e lâmpadas coloridas formam padrões caleidoscópicos ao mesmo tempo divertidíssimos e desnorteantes: exatamente como grandes cidades como Tóquio ou Las Vegas. Espaços que, na verdade, estão quase vazios: apenas alguns espelhos e lâmpadas, mas que nos dão a ilusão de um preenchimento completo.
Rachel traz o fantasma do que se acabou. Yayoi nos mostras como também somos compulsivos nas nossas cidades, casas, vidas, trabalhos, preenchendo todos os nossos minutos com miríades de imagens e estímulos. Fascinantes.Vazios.

sábado, 26 de setembro de 2009

A Vida Privada da Obra de Arte




Algumas das grandes obras de Arte possuem uma história particular por vezes mais interessante que a própria história dos artistas que as produziram. Uma história de resistência e sobrevivência às ameaças do tempo e das pessoas.
"A Ressurreição" , afresco de Piero della Francesca e "A Santa Ceia", de Leonardo da Vinci, por exemplo, escaparam por um triz dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.


"A Primavera", de Botticelli, foi criada para ser um presente de casamento e para ornamentar a parede do quarto do casal: cheia de simbologia, teria um função subliminar de ajudar o casal, bastante jovem, nos procedimentos sexuais do casamento.
A belíssima modelo da "Vênus", de Velazquez, teria sido uma amante italiana do pintor, quando este viveu por 3 anos na Itália.

Baseada em uma longa série da BBC de Londres, eu organizei um curso em 10 aulas onde conheceremos cada detalhe das obras escolhidas: a que se destinavam, o procedimento técnico utilizado na sua confecção, as polêmicas causadas, as ameaças do tempo e das guerras, os fatos e pessoas responsáveis por sua sobrevivência.
São elas:
07/10: ‘A RESSURREIÇÃO’ Piero della Francesca
14/10: ‘A SANTA CEIA’ Leonardo da Vinci
21/10: ‘PRIMAVERA’ de Botticelli
28/10: ‘VÊNUS’ Velazquez
04/11: ‘A RONDA NOTURNA’ Rembrandt
11/11: ‘3 DE MAIO DE 1808’ Goya
18/11: ‘LIBERDADE GUIANDO O POVO’ Delacroix
25/11: ‘O BEIJO’ Rodin
09/12: ‘DOMINGO NO GRAND JATTE’ Seurat
15/12: ‘O GRITO’ Munch

O Curso vai acontecer todas as QUARTAS , das 19:00 às 21:00, no ESPAÇO TELEZOOM do Leblon, no Rio de Janeiro.
Inscrições e informaçõe nos telefones
(21)3435-1617 e 3435-1588

Filmes que estou me lembrando agora

  • "Melancolia"( Lars von Trier)
  • "O Jardineiro Fiel" ( Fernando Meireles), "Apocalypsis Now" ( Coppola), "Amarcord" (Fellini)," Cidade de Deus" ( Fernando Meireles), "Lavoura Arcaica" (Luis Fernando Carvalho),"A Noite dos Desesperados" ( Sidney Pollack),"Excalibur"( John Borman), "Jules et Jim" ( François Truffaut), "Roma" ( Fellini),"Blow Up"(Antonioni),"Salam Cinema!"(Makhmalbaf),"Babel" (Alejandro Iñarritu),"Diários de Motocicleta" ( Walter Moreira Sales)
  • "Volver"(Almodóvar), "Hable con Ella" (Almodovar), "Carne Trêmula"(Almodóvar), "Ata-me' (Almodóvar), "Todo Sobre mi Madre"(Almodóvar), "Barcelona" ( Woody Allen), "Match Point" (Woody Allen), "Manhattan" (Woody Allen)
  • Les Misérables 2019 (Ladj Ly) , Bacurau (Kleber Mendonça Filho) , Parasita (Bong Joon-ho), Coringa (Todd Phillips)
  • Onegin (Martha Fiennes)

Livros que estou me lembrando agora

  • " A Prosa do Observatório" ( Julio Cortazar), "Passeio ao Farol" ( Virginia Woolf), "Budapest" ( Chico Buarque),"Hamlet" ( Shakespeare),"O Segredo da Flor do Ouro"(Jung),"A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen"(Eugen Herrigel), "I Ching o livro das mutações"(tradução de Richard Wilhelm),"Bhagavad Ghita"(tradução de Ramananda Prashad),"As Mil e Uma Noites'( tradução de Mamede Moustapha Jarouche),"História da Arte Italiana 1,2,3"(Giulio Carlo Argan),"Carnaval no Fogo" (Ruy Castro),"De Todos os Fogos o Fogo" (Julio Cortazar), "El Libro de los Seres Imaginarios"( Jorge Luis Borges),"Cartas a Theo' ( Vincent Van Gogh), "Noa Noa "(Paul Gauguin),"O Paraiso na Outra Esquina" ( Mario Vargas Llosa), " A Invenção da Liberdade"( Satarobinsky)
  • "Evangelho Segundo Jesus Cristo"( Saramago), "Ensaio sobre a Cegueira"(Saramago), O "Leite Derramado" (Chico Buarque), "As Núpcias de Cadmo e Harmonia" (Roberto Calasso)," Mulheres, Militância e Memória"( Elizabeth X. Ferreira), "Logações Perigosas" ( Chauderlos de La Clos),"Drácula"( Bram Stocker),"Do Espiritual na Arte" ( Wassily Kandisnky)