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domingo, 22 de janeiro de 2012

E a tarde caía feito um viaduto...


Nos meados dos anos 70 tivemos o privilégio de ser alunos e alunas  de Nelson Leirner, Julio Plaza, Regina Silveira, Ubirajara Ribeiro, Walter Zanini, Evandro Carlos Jardim, Nicolas Vlavianos, Rafael Buongermino, Duschennes, Donato Ferrari, Tomoshige Kosuno,Donato Chiarella,entre outros grandes professores da FAAP , quando, após o assassinato de Wladimir Herzog - então também professor de jornalismo da FAAP- nos porões da ditadura, iniciava-se um período de reivindicação das liberdades democráticas. A FAAP fervilhava de entusiasmo e criatividade. E as aulas do Nelson Leirner eram as que mais mexiam com a gente. As que não nos deixavam dormir à noite. As que desmontavam tudo o que anteriormente acreditávamos. As que nos desnudavam das nossas máscaras narcísicas e nos propunham a sinceridade. A verdade. A pureza mais íntima.
Resgatei esta entrevista com ele de um catálogo que tenho.



ENTREVISTA COM NELSON LEIRNER ( Catálogo da exposição "Onde está você, Geração 80?", 2004, CCBB - Rio de Janeiro.
 Daniela Name e Fernanda Lopes

Um dos maiores nomes da arte brasileira nos anos 60, Nelson Leirner, um dos fundadores do Grupo Rex, integrou a equipe de professores que mudou  cara do curso de arte da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP) na virada dos anos 70 para os anos 80. Junto com nomes como Regina Silveira e Julio Plaza, Leirner ajudou a formar alunos como Leda Catunda, Sergio Romagnolo, Luiz Zerbini e Leonilson.
A característica fundamental da FAAP era misturar a pintura com outras formas de expressão artística o que se refletiu diretamente nos alunos formados nas suas oficinas.

Conte por favor um pouco da sua história na FAAP.
Quando você começou a dar aula?

NL: Comecei a dar aula na FAAP em 1973. Naquela época se começou a pensar numa reestruturação das artes plásticas na FAAP. Entrei como professor convidado e era um grupo que tinha o Donato Ferrari, o Mário Ishikawa...Eles estavam tentando replanejar o curso de arte, trazendo novos professores. E foi aí que, eu, Regina Silveira, Julio Plaza e Walter Zanini começamos a dar aula. Antes da gente, a ênfase maior era para as aulas teóricas. A aula prática praticamente não existia. Tanto que as oficinas eram minúsculas, fora do prédio da FAAP, em um galpãozinho. Dávamos aula lá, mas quase não havia equipamento, nada. Com o tempo, a FAAP virou uma universidade com uma múltipla ação. Artes Plásticas foi sempre curso deficitário, que não rendia financeiramente. Porque Artes Plásticas, engraçado, era um curso onde as pessoas começavam mas interrompiam. Tanto que era chamado de ‘espera marido’ (risos). As pessoas entravam para esperar casar, para fazer alguma coisa até casar. Depois que casavam, iam embora. Então os cursos que começavam com 30, 40 alunos por turma, terminavam com duas, três pessoas, a maioria era de mulheres. Isso começou a mudar fins dos anos 70. Como o novo quadro de professores já estava lá há quase 10 anos, tivemos a chance, depois de muita luta política, de transformar o quadro de ‘espera-marido’ para alguma outra coisa...Pela diretoria, o curso teria sido até fechado. Mas havia um testamento da família Penteado que obrigava a manter a universidade sempre ligada às artes. As Artes Plásticas eram um osso atravessado na garganta deles. Todos os movimentos políticos, todos os movimentos de greve por melhores salários, começavam nas Artes Plásticas...
Com o tempo as aulas práticas assam a ter uma importância maior? Isso gera resultados nos trabalhos dos alunos? Aqui no Parque Lage houve uma espécie de resgate do prazer pelo fazer...O que aconteceu em São Paulo?
NL: O Parque Lage era muito mais voltado para a pintura. Em São Paulo, abríamos mais o campo para o objeto, para  a instalação, para outros meios. E também formamos críticos, como a Daniela Bousso, que foi minha aluna nos anos 80. O Martin Grossmann também foi meu aluno. Discutíamos sempre no bar, o Buim, que era uma espécie de continuação da sala de aula, um ponto de encontro de professores e alunos. De dia você discutia na lanchonete dentro da FAAP. À noite, ia para o Buim e continuava discutindo, só que todo mundo terminava bêbado...Podia até ter surgido um movimento dadaísta no Buim, se tivesse um Tsara por lá. (risos) O bar fervilhava.
Você acha que o fato de os professores não terem uma formação como pintores, como acontecia no Parque Lage, faz com que a Geração 80 saída da FAAP tenha obras com características mais híbridas Como as aulas se refletiram no trabalho de alunos como Leda Catunda, Sergio Romagnolo e Leonilson?
NL: Cada um poderia escolher o professor que quisesse como orientador. A Leda e o Sergio me escolheram. E cada um ia escolhendo o professor que se adequava mais. A Regina Silveira, por exemplo, tinha uma pesquisa mais da imagem, começou a usar o microfilme, computador, Xerox, multimeios. Eu estava mais ligado ao objeto, à instalação, à performance... Havia um deslocamento de alunos para outras linguages que não a pintura, embora nós também déssemos aula de pintura.
Mas a pintura de leda Catunda é meio objetual, não é? Sai do plano.
NL: Lógico, sai do plano direto. Nas minhas aulas, eu provocava os alunos. Minha primeira aula de pintura era sem tinta. Dizia: “peguem um lençol e, sem usar nenhum tipo de tinta, tragam um trabalho de pintura”. Deu no que o Leonilson fez a vida inteira. Mas havia um choque dentro da própria FAAP , porque eu fazia este tipo de coisa e outros professores insistiam no uso da tinta. Ao mesmo tempo, o Juli Plaza falava de multimídia, a Regina de Xerox. Aquela porcentagem de alunos que estavam realmente interessados, começam a pensar em arte.
Vocês acabaram mudando a faculdade.
NL: Abrimos a faculdade para os alunos. Eu me lembro até hoje, por exemplo, que vários trabalhos de alunos invadiram o saguão principal onde estavam as estátuas do Aleijadinho. Daquela escadaria saía um belíssimo trabalho da Laura Vinci. Iran do Espírito Santo ocupou a parede com as malas que ele fazia. Era pintura mas na parede, na forma de objetos. Nós conseguimos sair da sala de aula. Havia professores que ainda exigiam técnica, o domínio perfeito da solda em metal, por exemplo. E havia alunos que tinham um trabalho que se aproximava destes mestres. Comigo, se um aluno dobrasse o metal errado ou não soubesse usar a solda, eu pedia que ele chamasse um técnico. Estava mais interessado na idéia, no projeto. A diferença entre os professores dava à FAAP um certo equilíbrio. Havia várias cabeças. A experiência de uma escola livre é diferente: você escolhe um único professor, o que para mim é negativo. Você não tem a opção de levar uma chacoalhada de um, de outro...” não, mas ele me mandou fazer isso”, dizia um aluno para mim. E eu respondia: ‘ mas ele não sabe o que ele está falando”. E o aluno era obrigado a se mexer.
Vocês faziam um cabo de guerra na cabeça do aluno.
NL: O aluno pirava, isso era a grande coisa que acontecia naquela época na FAAP. Mas míngüem obrigava ninguém a nada. Meus alunos não tinham que fazer performance porque eu fazia, tanto que eu dava aula de pintura. MS de maneira diferente dos professores tradicionais. A primeira medida que cada aluno tinha que tomar era jogar fora a maleta de pintura, aquele material arrumadinho de estudante comportado. Eu gostava de fazer uma terapia de choque nas primeiras aulas. Chegava em aula, pegava um livro, qualquer um, e falava: “ escrevam”, e fazia eles escreverem por duas horas seguidas um texto. No fim da aula eu chegava e falava: “ Vocês são uns babacas. Vocês me obedeceram durante duas horas sem nenhum questionamento porque vocês estavam fazendo isso?”
E alguma vez alguém questionou?
NL: Sim, e quando isso acontecia, a aula terminava. Você começa a formação de alguém desse jeito. Outra coisa que eu fazia era perguntar “ Quem quer passar?” no primeiro dia. “Quem quer passar com nota 5 levante o dedo”. Aí um ou dois levantavam a mão. Eu pedia os nomes e anotava. Depois eu falava: “ E agora, quem quer passar com nota 7?” (risos) Os dois com nota cinco já ficavam meio ressabiados, entende? Também oferecia aos alunos a oportunidade de tirar a nota no baralho. Fazia isso quando o aluno vinha me mostrar o trabalho e eu percebia que ele tinha chutado, feito de qualquer maneira. Porque não gostava de reprovar, reprovar em arte é meio absurdo. Então eu abria o baralho e falava “Você tem seis chances a favor e quatro contra”. Muitos deles tiravam nota no baralho e, se tirasse dez, passava com dez.
E tinha gente que não topava o jogo?
NL: Ah, sim... A maioria não topava o jogo. A maioria tinha receio. Na faculdade, o aluno sabe que ele tem que ter presença e nota. Se ele não tiver presença e nota, ele não vai para frente. Esta é a diferença de um curso livre. Um professor de faculdade tem na mão um alto poder de exigir trabalho. Eu dizia:” quero cem croquis de cada um para a próxima aula”. Eles traziam uma porcaria, lógico, mas o que importa? Era a chance de, na aula seguinte eu perguntar: “ Vocês sabem o que significa cem?” Cem croquis, se vocês pensarem bem, pode ser uma instalação. Então não é à toa que a gente pede as coisas pra vocês. É para vocês saberem que tudo tem outras soluções. Eles apanhavam de mim, da Regina, do Julio... O fim da ditadura ajudou muito essa explosão da Geração 80, porque na ditadura na poderia haver aulas como esta.
Qual a lembrança que você tem destes alunos, 20 anos depois?
NL: Casei a Leda e o Sergio. Estimulei os dois a namorar e acabou dando certo. Zerbini também foi meu aluno, tinha uma ótima cabeça. Leonilson não terminou a FAAP. Ele fez a FAAP no começo. Foi meu aluno só um ano. Agora, é muito curioso porque você percebe logo quando alguém tem talento, então deixa esse tipo de aluno solto, para que ele possa criar. Com ele foi assim. A maioria...bem, passaram por mim seis mil alunos. Digamos que apenas 1% deles se tornaram bons artistas. Você tem que saber lidar com tantas cabeças e saber que muitos estão ali e não vão acontecer na carreira. Quando eu entrava na primeira aula, eu fazia a experiência de olhar para cada um. Na maioria das vezes, sabia quem ia ser um bom artista ou não nesta primeira olhada, pela postura, por algo inexplicável.
E quais eram as características que indicavam um futuro bom artista?
NL: Questionamento, o posicionamento, o interesse. Eu era conhecido como um professor muito duro. O pessoal chorava mesmo. Até hoje o pessoal tem medo de mim. Não era carrasco, mas fazia questão de induzir os alunos ao erro para que eles perdessem as idéias pré concebidas. Na arte você tem que saber uma coisa: tem sempre um discurso que pode ser positivo e um que pode ser negativo, dentro de um mesm trabalho. Seja qual for o trabalho, você pode pender para um lado ou para o outro. Então, de repente, dando certos tipos de exercício ao pessoal, sabia exatamente como destruir alguma coisa. Arrasava. Fazia zero do outro. E mostrava como construir também. É engraçado, porque o aluno que entra no primeiro ano, já vem fantasiado de artista. Ele já vem com tudo pendurado em cima dele, como uma árvore de natal. Vem com o melhor papel que existe, ainda mais na FAAP, que é uma faculdade de gente que tem dinheiro.
E a tarefa do professor é desmontar isso?
NL: De cara.
E dói , né? Por isso eles choravam...
NL: Mas o que eu fazia não era destruição. Tentava mostrar como eles podiam ocupar espaço. Ana Tavares foi minha aluna e passou por estas experiências. Cada aluno apresentava um trabalho. E Ana Tavares foi o único dez geral, avaliado positivamente por todos os professores, já que havia uma grande troca entre nós. Quando acabava o ano, nós fazíamos uma exposição por toda a FAAP. Ocupávamos a faculdade com o trabalho dos alunos e todos iam olhar, para dar opinião. Eles acompanhavam não só para ouvir, mas também para aprender a fazer uma leitura do trabalho. Era muito rico, porque a gente deixava claro que arte não se ensina e nós mesmos não sabíamos direito o que estávamos fazendo lá. Isso dava um nó na cabeça do aluno, mas também fazia ele crescer.

Filmes que estou me lembrando agora

  • "Melancolia"( Lars von Trier)
  • "O Jardineiro Fiel" ( Fernando Meireles), "Apocalypsis Now" ( Coppola), "Amarcord" (Fellini)," Cidade de Deus" ( Fernando Meireles), "Lavoura Arcaica" (Luis Fernando Carvalho),"A Noite dos Desesperados" ( Sidney Pollack),"Excalibur"( John Borman), "Jules et Jim" ( François Truffaut), "Roma" ( Fellini),"Blow Up"(Antonioni),"Salam Cinema!"(Makhmalbaf),"Babel" (Alejandro Iñarritu),"Diários de Motocicleta" ( Walter Moreira Sales)
  • "Volver"(Almodóvar), "Hable con Ella" (Almodovar), "Carne Trêmula"(Almodóvar), "Ata-me' (Almodóvar), "Todo Sobre mi Madre"(Almodóvar), "Barcelona" ( Woody Allen), "Match Point" (Woody Allen), "Manhattan" (Woody Allen)
  • Onegin (Martha Fiennes)

Livros que estou me lembrando agora

  • " A Prosa do Observatório" ( Julio Cortazar), "Passeio ao Farol" ( Virginia Woolf), "Budapest" ( Chico Buarque),"Hamlet" ( Shakespeare),"O Segredo da Flor do Ouro"(Jung),"A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen"(Eugen Herrigel), "I Ching o livro das mutações"(tradução de Richard Wilhelm),"Bhagavad Ghita"(tradução de Ramananda Prashad),"As Mil e Uma Noites'( tradução de Mamede Moustapha Jarouche),"História da Arte Italiana 1,2,3"(Giulio Carlo Argan),"Carnaval no Fogo" (Ruy Castro),"De Todos os Fogos o Fogo" (Julio Cortazar), "El Libro de los Seres Imaginarios"( Jorge Luis Borges),"Cartas a Theo' ( Vincent Van Gogh), "Noa Noa "(Paul Gauguin),"O Paraiso na Outra Esquina" ( Mario Vargas Llosa), " A Invenção da Liberdade"( Satarobinsky)
  • "Evangelho Segundo Jesus Cristo"( Saramago), "Ensaio sobre a Cegueira"(Saramago), O "Leite Derramado" (Chico Buarque), "As Núpcias de Cadmo e Harmonia" (Roberto Calasso)," Mulheres, Militância e Memória"( Elizabeth X. Ferreira), "Logações Perigosas" ( Chauderlos de La Clos),"Drácula"( Bram Stocker),"Do Espiritual na Arte" ( Wassily Kandisnky)