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sábado, 10 de outubro de 2009

Os nossos Vazios de Todo Dia


Rachel Whiteread é uma artista inglesa de 46 anos. Yayoi Kusama, também artista plástica, japonesa, está na casa dos 80. À primeira vista, nada em comum entre elas, nem no trabalho das duas. Mas, se analisarmos um pouco mais, à sua maneira, cada uma delas preenche o vazio de forma diversa. A questão na verdade , é esse imenso vazio. Para Rachel, o que importa é o vazio entre as coisas. Lembra a música do Gil: "É sempre bom lembrar, que um copo vazio, está cheio de ar". Usando a modelagem como base de trabalho e pensamento, ela coisifica o vazio entre as coisas. Os vãos das cadeiras acabam por se tornar forma, através dos moldes em gesso , concreto ou resina. Indo muito além do pensado, ela tira moldes de casas inteiras por dentro, casas dos subúrbios de Londres, que vão ser derrubadas. Casas vitorianas de outra época, uma época que vai se extinguindo a cada dia que passa. Ela perpetua não a casa, mas esse fantasma que é o vão das coisas, dando forma à ausência da construção externa, pois são as paredes e janelas e portas internas que nos é dado ver pelo processo de molde. O avesso exposto pelo lado de fóra. Seus monumentos ( podemos chamá-los assim?) não recebem tinta e mantém a cor acinzentada do material. Silenciosas presenças que nos remetem aos limites, à memória, à morte. Sua obra prima é um monumento aos judeus austríacos. Foi erguido em Viena, num lugar chamado Judenplatz, na forma de uma biblioteca " pelo avesso": as paredes que formam o bloco cúbico do monumento, foram moldadas em estantes de bibliotecas. Brancas. Livros em branco de histórias que não foram escritas, de 6.000 judeus austríacos mortos.

Yayoi Kusama poderia ter se tornado tão famosa quanto Andy Warhol. Frequntou o mesmo
grupo Pop Art da época. Porém, em 1975, voltou para Tóquio e se internou numa clínica

psiquiátrica onde está até hoje. Ela sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo e sua compulsão é por pontos e bolas. No Japão , ela talvez seja considerada a maior artista contemporânea. Continua trabalhando e preenchendo todos os espaços com seus pontos, criando, ao inverso de Rachel, um universo infinito, inteiramente preenchido de formas geralmente circulares e cores, muitas cores. Suas intalações com espelhos circulares e lâmpadas coloridas formam padrões caleidoscópicos ao mesmo tempo divertidíssimos e desnorteantes: exatamente como grandes cidades como Tóquio ou Las Vegas. Espaços que, na verdade, estão quase vazios: apenas alguns espelhos e lâmpadas, mas que nos dão a ilusão de um preenchimento completo.
Rachel traz o fantasma do que se acabou. Yayoi nos mostras como também somos compulsivos nas nossas cidades, casas, vidas, trabalhos, preenchendo todos os nossos minutos com miríades de imagens e estímulos. Fascinantes.Vazios.

sábado, 26 de setembro de 2009

A Vida Privada da Obra de Arte




Algumas das grandes obras de Arte possuem uma história particular por vezes mais interessante que a própria história dos artistas que as produziram. Uma história de resistência e sobrevivência às ameaças do tempo e das pessoas.
"A Ressurreição" , afresco de Piero della Francesca e "A Santa Ceia", de Leonardo da Vinci, por exemplo, escaparam por um triz dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.


"A Primavera", de Botticelli, foi criada para ser um presente de casamento e para ornamentar a parede do quarto do casal: cheia de simbologia, teria um função subliminar de ajudar o casal, bastante jovem, nos procedimentos sexuais do casamento.
A belíssima modelo da "Vênus", de Velazquez, teria sido uma amante italiana do pintor, quando este viveu por 3 anos na Itália.

Baseada em uma longa série da BBC de Londres, eu organizei um curso em 10 aulas onde conheceremos cada detalhe das obras escolhidas: a que se destinavam, o procedimento técnico utilizado na sua confecção, as polêmicas causadas, as ameaças do tempo e das guerras, os fatos e pessoas responsáveis por sua sobrevivência.
São elas:
07/10: ‘A RESSURREIÇÃO’ Piero della Francesca
14/10: ‘A SANTA CEIA’ Leonardo da Vinci
21/10: ‘PRIMAVERA’ de Botticelli
28/10: ‘VÊNUS’ Velazquez
04/11: ‘A RONDA NOTURNA’ Rembrandt
11/11: ‘3 DE MAIO DE 1808’ Goya
18/11: ‘LIBERDADE GUIANDO O POVO’ Delacroix
25/11: ‘O BEIJO’ Rodin
09/12: ‘DOMINGO NO GRAND JATTE’ Seurat
15/12: ‘O GRITO’ Munch

O Curso vai acontecer todas as QUARTAS , das 19:00 às 21:00, no ESPAÇO TELEZOOM do Leblon, no Rio de Janeiro.
Inscrições e informaçõe nos telefones
(21)3435-1617 e 3435-1588

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Circuito das Artes do Jardim Botânico

rua lopes quintas
grupo Samba com Chucrute no Baukurs








gabriela civitate
e cátia capistrano
do ateliê Casa Azul













Já existe há 13 anos. É quando os ateliês do bairro, que são muitos, abrem suas portas, todos de uma vez, para que as pessoas possam visitá-los e conhecer o resultado do trabalho de tantos atistas e artesãos. O primeiro bairro a tomar essa iniciativa foi Santa Teresa, outro lugar com vários ateliês.
Pouco tempo depois, Gabriela Civitate e Cátia Capistrano começaram a organizar o Circuito no Jardim Botânico. Gabriela ceramista e Cátia gravurista são sócias, com outras artistas e artesãs, na Casa Azul Ateliê.
Eu mesma, durante um tempo, tive o meu ateliê no mesmo endereço: Rua Lopes Quintas 201, e já participei do Circuito com gravuras e guaches, com palestras, divulgando meu livro sobre a Festa do Divino em Paraty ou mediando mesa de debate. Este ano as aulas me tomaram todo o tempo. Infelizmente não consegui produzir um trabalho plástico. Por outro lado, pude percorrer a pé os ateliês e participar de alguns eventos, coisa que , quando somos expositores, jamais conseguimos porque o movimento é muito intenso e não podemos sair nenhum minuto das nossas salas. Daí que resolvi fotografar alguns momentos e é isso que venho dividir com vocês aqui no blog.
Christina, ateliê Casa Azul
A edição deste ano parece ter alcançado seu formato ideal. Foram dois finais de semana, do meio dia às 9 da noite, com oficinas de ritmo, capoeira, grupo de chorinho, todos se apresentando nas ruas. Curiosamente o bairro concentra um grande número de ceramistas e os trabalhos tem se apresentado cada vez mais interessantes a cada ano que passa.

grupo
tambor carioca



O tempo foi esplêndido e o prazer de ver esses variados trabalhos de arte foi aumentado pelo sol cálido de quase primavera e a brisa que trazia os aromas diversos do Jardim Botânico e da Mata Atlântica.

O Circuito acontece nos dois finais de semana de Agosto. Ano que vem espero poder participar novamente como expositora.



sábado, 8 de agosto de 2009

Jackson Pollock e o Xamanismo


Jackson Pollock nasceu em Cody, Wyoming, em 1912 e talvez seja o mais conhecido representante da Action Painting ou Expressionismo Abstrato da Escola de Nova York. Seu interesse gravitava em torno da Filosofia do Extremo Oriente, dos escritos de Krishnamurti, das teorias de Jung, da música de John Cage, do Jazz e da pintura de Picasso, especialmente Guernica. Como muitos artistas de sua geração, sentiu-se atraído pelas experiências surrealistas com o automatismo psíquico e pela arte dos dito "primitivos". Picasso e Matisse reviram seus conceitos estéticos a partir da arte da Oceania e da África.




Pollock foi buscar no xamanismo dos índios norteamericanos um fio condutor para sua busca pessoal através da arte, que surgia agora mais como um prolongamento exterior da interioridade do artista. Num primeiro momento, seus quadros semifigurativos ainda procuram ilustrar vivências rituais xamânicas: o sacrifício, a fusão homem animal ( a fusão de um xamã em um animal totêmico é uma das suas condições para sua viagem no invisível), o nascimento, o êxtase, a morte , o renascimento, produzindo uma arte de essência espiritual, fruto de um pensamento penetrado por simbolismos, plena de sacralidade e sensualidade.


Nos últimos dez anos de sua vida, Pollock dedica-se ao que se convencionou chamar de "dripping" , onde ele parte do zero, do pingo de tinta que deixa cair na tela, deixando certa margem para o acaso que atua como um sentido de liberdade em relação às leis da lógica. Nesta fase de sua obra, não "ilustra" mais através das imagens a "viagem" xamânica; agora , por intermédio da pintura de ação, é a própria vivência ritualística que está ali representada. Sua pintura é resultante de uma gestualidade corporal que o mantém numa condição de excitação constante, quase um lúcido delírio: o êxtase xamânico. É a única pintura que não toca a tela e na qual o artista funciona como um intermediário entre sua própria natureza e a obra, produzindo marcas com o auxílio do acaso e do rítmo de seus gestos.

De Outubro do ano passado a fevereiro deste ano, Pinacothèque de Paris expôs "POLLOCK ET LE CHAMANNISME", reunindo obras deste período e alguns objetos rituais.


terça-feira, 14 de julho de 2009

"A thing of beauty is a joy forever"

Lygia Pape nasceu em Nova
Friburgo no estado do Rio de Janeiro
em 1927.
É considerada, inclusive no exterior, uma das mais importantes representantes das Artes Plásticas contemporâneas brasileiras. Sua trajetória se inicia com o abstracionismo geométrico e evolui para o neoconcretismo, movimento encabeçado por Ferreira Gullar e Hélio Oiticica, em meados da década de 1950, no Rio de Janeiro. Lecionou na Belas Artes da UFRJ e na Universidade SAnta Úrsula. Participou de várias exposições coletivas e individuais. Trabalhou com cinema e ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim, passando a residir em Nova York por vários meses. Morreu em 2004.
A atual Bienal de Veneza está expondo esse magnífico trabalho dela, da série "Ttéia". Luz e fios de aço produzem um espaço de magia e precisão, delicado e impactante, frágil e poderoso. Esse trabalho data de 2002 e possui uma qualidade de atemporalidade que o desliga de qualquer tendência ou escola moderna, pósmoderna, contemporânea.
Foi premiada postumamente.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Poesia de Sophia


"Para atravessar contigo o deserto do mundo,

Para enfrentarmos juntos o terror da morte,

Para ver a verdade, para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei.


Por ti deixei meu reino, meu segredo

Minha rápida noite, meu silêncio

Minha pérola redonda e seu Oriente

Meu espelho, minha vida, minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso.


Cá fora, a luz sem véu do dia duro.

Sem os espelhos, vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo



Por isso , com teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento."


Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto em 1919, viveu em Lisboa e faleceu em 2004. É considerada uma das maiores poetisas de Portugal. Foi amiga de João Cabral de Mello Neto e admirava Manoel Bandeira.


sábado, 27 de junho de 2009

A VAnguarda Russa em Exposição no CCBB, RJ.


A exposição "Virada Russa", sobre a vanguarda do início do século XX, já está no CCBB do Rio. Fui ontem rapidamente e pretendo voltar com mais calma. Mas já deu pra perceber que foi muito bem montada. Não são muitas as obras; contudo dá para perceber que são obras relevantemente representativas. A sala dedicada a Malevitch traz os emblemáticos "Quadrado Negro sobre Fundo Branco", "Cruz Negra" e "Círculo Negro" lado a lado, iluminados sobre uma grande parede negra, conferindo uma monumentalidade silenciosa a essas formas rigorosas. O impacto visual é imediato e poderoso, principalmente porque as outras obras expostas no mesmo ambiente pertencem a uma fase de excesso de cor.

Outro ambiente que emociona é dedicado a quatro obras de Wassily Kandinsky. Muito bem escolhidas, representam , cada uma delas, um período da obra dele; há o figurativo expressionista - um pequeno quadro de uns 12cm por 18cm - em forma de uma paisagenzinha com torre de igreja em cores luminosas e vibrantes, há uma tela maior de São Jorge a meio caminho da abstração, outra abstrata que me prendeu em sua admiração por quase meia hora , e a quarta tela, já pós-bauhaus, de abstração mais geometrizante , de ritmos musicais e leveza espacial.

A exposição ainda conta com belas obras de Natalia Goncharova, Aleksandra Exter e Olga Rozanova, tres das muitas mulheres que contribuiram para a renovação da arte russa do início do século XX.

A última sala exibe obras pós stalinistas de gosto duvidoso, adequadas ao novo pensamento do regime, que considerava o Suprematismo de Malevich , Rozanova e Rodchenko como fruto tardio de um decadentismo burguês! Porém, os cartazes publicitários deste mesmo período expostos nesta sala, são testemunhas do quanto que o Construtivismo de Tatlin e Gabo e o Suprematismo influenciaram a estética das artes gráficas da época.

A exposição fica até 23 de agosto. É uma rara oportunidade de apreciar estas obras que compõem o acervo fixo do Museu Estatal Russo de São Petesburgo.

E constatar como eram corajosos e verdadeiros estes artistas modernos na sua busca da essência na representação plástica.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Festa do Divino, em Paraty

Trechos e imagens do meu livro "O IMPÉRIO DO DIVINO EM PARATY"
Foi pelo mar que eu cheguei a Paraty pela primeira vez. Era um dia de julho e tudo estava imerso numa atmosfera azulada. Naquela época, os carros ainda transitavam pelas ruas e a cidade tinha um ar meio abandonado, o mato crescendo no campanário da Santa Rita.
Era um dia de semana qualquer.
Casas fechadas.
De repente, ao dobrar no Largo do Rosário, um bouganville ciclâmen vibrou contra o céu azul e ouvi os pássaros cantarem só pra mim. Muitas e muitas vezes depois eu voltaria a Paraty mas essa primeira impressão é forte até hoje; foi quando eu me apaixonei pelo lugar.
Numa dessas vezes, estava acontecendo uma festa local que eu desconhecia: a Festa do Divino. Sentada na praça, em frente à Matriz, ouvi o relato minucioso de um dos moradores da cidade sobre aquela festa, que, na época, era bem mais modesta do que a que se faz hoje. Passei a voltar praticamente todos os anos, completamente fascinada pela beleza e significado daqueles rituais tão antigos, conservados no seu frescor espontaneamente pelos habitantes que os praticam e ensinam há gerações. Resolvi fazer um pouco parte daquilo, trazendo alunos a cada ano para que, conhecendo o evento, pudessem, de alguma forma, contribuir para a preservação do mesmo.
A Festa do Divino realiza-se no dia de Pentecostes(3), cinquenta dias após a Páscoa. Portanto, possui data móvel, que varia entre fins de maio e início de junho. Este evento é mais citado no Novo Testamento do que no Antigo, uma vez que tem importância capital para a fé e liturgia cristãs: é em Pentecostes que ocorre a descida da Terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo, sobre os Apóstolos de Jesus, reunidos após Sua morte mas ainda despreparados para a missão evangelizadora que lhes caberia. É o Espírito que os inspira e os prepara, descendo sobre suas cabeças na forma de uma língua de fogo, a centelha do entendimento, o insight divino. É nesse momento que nasce a primeira Igreja de Cristo; do discurso de Pedro e do “dom das línguas”, adquirido imediatamente após a descida do Santo Espírito e que significa a capacidade de dirigir-se a todas as nações e ser compreendido por elas.

Esta festa cristã, no entanto, tem uma origem judaica: é o SHAVUOT, a festa das primícias da colheita do trigo. Uma festa agrícola à qual, depois, foi dado também um motivo histórico: é quando se comemora a outorga da lei a Moisés.

Seu significado simbólico cresce em beleza se associarmos o SHAVUOT à PENTECOSTES. Com o trigo faz-se o pão, alimento do corpo. Com as tábuas de Moisés faz-se a lei, alimento moral. Com o Espírito Santo faz-se o discernimento, alimento da alma. Belas e fartas colheitas, portanto!

Ao Brasil, a festa chegou com os primeiros colonizadores portugueses ainda no século XVI, e hoje se faz presente na maioria dos estados brasileiros, mantendo, em linhas gerais, os rituais medievais com os quais ela aportou por aqui. Acredita-se que a Rainha Isabel de Aragão, de Portugal (1271 – 1336), casada com o Rei D.Diniz foi a responsável pela difusão das comemorações em honra ao Espírito Santo e foi também quem lançou as bases da Congregação do Espírito Santo, um movimento de solidariedade cristã que foi, aos poucos, absorvendo as tradicionais festas pagãs. Ao que parece, as festas iniciaram-se com a construção da Igreja do Espírito Santo na cidade de Alenquer. O ponto alto dos festejos acontecia dentro do mais puro espírito cristão de igualdade e fraternidade, que unia os ricos e os pobres, sem distinção; era quando, por iniciativa da rainha, o bispo coroava um rapazinho da comunidade humilde, que se transformava em imperador por um dia, e assistia à missa solene, coroado e sentado em trono ao lado do altar, ocupando o lugar do rei. Nesta ocasião distribuía-se uma refeição à base de carne e batata, o “bôdo”, a toda a população do lugar. A comemoração espalhou-se pelo reino de forma semelhante ao cerimonial iniciado pela rainha, e, com a devida autorização, foram criadas coroas semelhantes a do rei, com os símbolos da Santíssima Trindade, para que os procedimentos em tudo seguissem os originais. Lá como aqui, mantiveram-se os elementos essenciais da festa: a coroação de um rapaz humilde durante a missa da véspera, o trono ao lado do altar e a farta distribuição de comida ao povo.

O Imperador, figura mais emblemática do acontecimento, deverá ser escolhido com alguns meses de antecedência e o ideal é que tenha entre 13 e 18 anos e que seja um pouco mais alto que seus Vassalos. Suas roupas serão confeccionadas seguindo rigidamente um modelo pré-estabelecido e idêntico às fardas da Milícia da Vila de Paraty no séc. XVIII.
A Procissão das Bandeiras é um marco nesta festa de Paraty: momento ímpar quando o fervor alia-se à uma beleza comovente. Todas as bandeiras são vermelhas e tem uma pomba branca no centro, que pode ser pintada ou bordada e, algumas vezes, possuem outros ornamentos também. No alto do mastro, sempre vai uma pombinha de madeira sobre um globo azul e a visão de todas aquelas pombinhas “voando” sobre um “mar” de bandeiras vermelhas, tendo como cenário as ruas e casa centenárias da cidade com suas janelas e portas decoradas, é contagiante. O vermelho das bandeiras segue a cor dos paramentos religiosos da festa de Pentecostes

A próxima Festa vai acontecer nos dias 29,30 e 31 de maio e eu vou levar um grupo. Mais informações:
tel:55(21)3150-3930
55(21) 7898-7376











sexta-feira, 8 de maio de 2009

Picasso e seus Mestres








" Picasso não foi um meteoro genial vindo de nenhum lugar. Foi um homem do século XX que se sabia, como todo pintor, o herdeiro de uma tradição, de uma história e de seus heróis. Ele teve seus mestres; alguns o influenciaram quando ele era um jovem artista - El Greco, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Ingres ou Gauguin. Mas Picasso sabia da responsabilidade que cabe a todo artista de recomeçar de outro modo e de fazer assim evoluir certa tradição, de criar uma cultura e de preparar o futuro. Também com outros mestres, na última etapa de sua vida, ele empreendeu longas conversações - Manet, Velazquez ou Delacroix.
Citar todos os pintores que Picasso amava seria cansativo: toda a história da arte, das pinturas rupestres aos quadros de seus contemporâneos Matisse e Braque, nutriram sua obra.(...) Picasso colheu aqui e ali, em toda parte; uma sombra em um, uma astúcia de composição em outro, e também a posição de uma mulher em uma fotografia, uma forma em um jornal, um aspecto inédito em uma publicidade. Neste sentido, ele foi um artrista impuro, um bricolor, o primeiro não romântico, talvez o primeiro verdadeiramente moderno, diria mesmo o primeiro contemporâneo - certamente aquele que, revolucionando a arte de seu tempo, a explorou mais e abriu novos caminhos." ( Olivier Cena)

Este texto acima abre o catálogo da exposição que aconteceu no Grand Palais , Paris, de outubro de 2008 a Fevereiro de 2009 . Os curadores reuniram quadros destes e de outros artistas a quem Picasso admirava, de quem ele sofreu influências ou de quem ele se apropriou de obras para fazer releituras livres e espetaculares.
Abaixo, o link da montagem da exposição: um filminho super bem elaborado, que mostra todo o cuidado que uma exposição como essa exige além de mostrar alguns desses quadros escolhidos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Os Dois Irmãos


Os Dois Irmãos me ensinaram sobre a beleza titânica de uma pedra ao sol. E eu me irmanei com os Irmãos, e fui pedra também. Imóvel e antiga. Vendo do alto as marés enfeitadas de gaivotas. Fronte altiva, acolhendo o Vento Sudoeste.

Este me ensinou as canções das sereias, zunindo sobre o mar encapelado, revirando cabeleiras, toalhas e guarda-sóis. Aprendi as canções todas. E saberei soltá-las quando a hora chegar.

Das areias, ouvi todas as histórias de todos os seres que por ali deixaram suas pegadas desde Os Primeiros dos Dias (porque nenhum foi O primeiro...) para um dia contá-las, quando eu for novamente areia.

O R E S T O É M A R ..................
foto de João Torres

Para aqueles que eu amo mais.

http://www.youtube.com/watch?v=gqyg1jD2zQc&feature=channel_page

sábado, 2 de maio de 2009

Eu sinto muito


No Jardim Botânico


(A mesma luz e
O bosque imerso nela)

Ando rápido como se pudesse escorrer a raiva pelos pés, como se pudesse afundar essa metódica raiva na lama rasa que se formou depois da chuva. Os turistas passam devagar aprisionando a paisagem nas câmeras digitais. Aprisionam a mesma paisagem que eu espero que me liberte, que me traga a redenção pra esse sentir desmedido que me enfeitiça e aprisiona na consciência de um tempo circular, initerruptamente a fazer e desfazer. Esse sentir sem alívio, sem perdão, sem trégua.
Duvido de tudo, agora.
Pensei que escolhi.
Pensei que fiz.
Pensei que desfiz.
Nada disso.

Só senti .

Sento à beira do lago para escrever e tentar colocar uma ordem no tempo e na raiva que não consegui escorrer de mim.

O sol do outono me faz um doce carinho no ombro direito. Paro de escrever, viro meu rosto na direção dele e lembro do Alberto Caeiro, pra quem a luz do sol não sabe o que faz e por isso não erra ,e é comum e boa. Não há metafísica, diz ele. Quem dera! Essa luz, madura e dourada, é justamente a que me traz de volta a consciência desse sentir. É a mesma luz de tantos outros sentires, e o bosque imerso nela.
É o sol, que neste exato brilhar entre as folhas ainda molhadas, me exibe e me expõe na mesma condição de fragilidade.


Vou embora para preservar essa minha nudez.
AnaCris Nadruz

sexta-feira, 1 de maio de 2009

The Garden of Love



Foi no Metropolitan de Nova York. Eu estava sozinha, feliz da vida que os amigos tinham resolvido fazer compras em China Town e eu podia, enfim, ficar horas no museu, sem ter que explicar nada pra ninguém, somente escrevendo no meu diário. Reproduzo aqui uma das páginas:“Quando me virei, estava lá: uma tela do Kandinsky, das primeiras abstratas, “The Garden of Love”. Na mesma sala , já tinha apreciado o lindíssimo “Dois Irmãos” do Picasso, em tons de um rosado velho , um “Nú” fantasticamente sanguíneo do Modigliani e um Matisse celestial. Mas , diante do Kandinsky, tudo mudou: fui passando, lentamente, de uma percepção exterior para um entendimento interior profundo, um giro quase imperceptível de consciência, mudando meu centro de gravidade em direção ao espiritual, à compreensão da Beleza em sua essência, o silêncio primordial no meio do ciclone, onde reina a mais absoluta das pazes. 'The GArden of Love - Improvisation n. 27' era o próprio 'O Amor que move o Sol e as outras Estrelas', de que fala Dante na 'Divina Comédia' , equalizando ritmos . É nesse universo que eu me reconheço habitante. Este quadro me mostra meus rastros , minha trilha, e me ilumina onde quer que eu esteja com um brilho de mil sóis, faz boiar na minha boca um sorriso arcaico, arrasta caravanas tilintantes e rubras pelas dobras das rugas da minha testa, e acelera em slow motion as patas do tigre ancestral adormecido atrás do meu coração. "
AnaCrisNadruz

Filmes que estou me lembrando agora

  • "Melancolia"( Lars von Trier)
  • "O Jardineiro Fiel" ( Fernando Meireles), "Apocalypsis Now" ( Coppola), "Amarcord" (Fellini)," Cidade de Deus" ( Fernando Meireles), "Lavoura Arcaica" (Luis Fernando Carvalho),"A Noite dos Desesperados" ( Sidney Pollack),"Excalibur"( John Borman), "Jules et Jim" ( François Truffaut), "Roma" ( Fellini),"Blow Up"(Antonioni),"Salam Cinema!"(Makhmalbaf),"Babel" (Alejandro Iñarritu),"Diários de Motocicleta" ( Walter Moreira Sales)
  • "Volver"(Almodóvar), "Hable con Ella" (Almodovar), "Carne Trêmula"(Almodóvar), "Ata-me' (Almodóvar), "Todo Sobre mi Madre"(Almodóvar), "Barcelona" ( Woody Allen), "Match Point" (Woody Allen), "Manhattan" (Woody Allen)
  • Onegin (Martha Fiennes)

Livros que estou me lembrando agora

  • " A Prosa do Observatório" ( Julio Cortazar), "Passeio ao Farol" ( Virginia Woolf), "Budapest" ( Chico Buarque),"Hamlet" ( Shakespeare),"O Segredo da Flor do Ouro"(Jung),"A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen"(Eugen Herrigel), "I Ching o livro das mutações"(tradução de Richard Wilhelm),"Bhagavad Ghita"(tradução de Ramananda Prashad),"As Mil e Uma Noites'( tradução de Mamede Moustapha Jarouche),"História da Arte Italiana 1,2,3"(Giulio Carlo Argan),"Carnaval no Fogo" (Ruy Castro),"De Todos os Fogos o Fogo" (Julio Cortazar), "El Libro de los Seres Imaginarios"( Jorge Luis Borges),"Cartas a Theo' ( Vincent Van Gogh), "Noa Noa "(Paul Gauguin),"O Paraiso na Outra Esquina" ( Mario Vargas Llosa), " A Invenção da Liberdade"( Satarobinsky)
  • "Evangelho Segundo Jesus Cristo"( Saramago), "Ensaio sobre a Cegueira"(Saramago), O "Leite Derramado" (Chico Buarque), "As Núpcias de Cadmo e Harmonia" (Roberto Calasso)," Mulheres, Militância e Memória"( Elizabeth X. Ferreira), "Logações Perigosas" ( Chauderlos de La Clos),"Drácula"( Bram Stocker),"Do Espiritual na Arte" ( Wassily Kandisnky)