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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Festa do Divino, em Paraty

Trechos e imagens do meu livro "O IMPÉRIO DO DIVINO EM PARATY"
Foi pelo mar que eu cheguei a Paraty pela primeira vez. Era um dia de julho e tudo estava imerso numa atmosfera azulada. Naquela época, os carros ainda transitavam pelas ruas e a cidade tinha um ar meio abandonado, o mato crescendo no campanário da Santa Rita.
Era um dia de semana qualquer.
Casas fechadas.
De repente, ao dobrar no Largo do Rosário, um bouganville ciclâmen vibrou contra o céu azul e ouvi os pássaros cantarem só pra mim. Muitas e muitas vezes depois eu voltaria a Paraty mas essa primeira impressão é forte até hoje; foi quando eu me apaixonei pelo lugar.
Numa dessas vezes, estava acontecendo uma festa local que eu desconhecia: a Festa do Divino. Sentada na praça, em frente à Matriz, ouvi o relato minucioso de um dos moradores da cidade sobre aquela festa, que, na época, era bem mais modesta do que a que se faz hoje. Passei a voltar praticamente todos os anos, completamente fascinada pela beleza e significado daqueles rituais tão antigos, conservados no seu frescor espontaneamente pelos habitantes que os praticam e ensinam há gerações. Resolvi fazer um pouco parte daquilo, trazendo alunos a cada ano para que, conhecendo o evento, pudessem, de alguma forma, contribuir para a preservação do mesmo.
A Festa do Divino realiza-se no dia de Pentecostes(3), cinquenta dias após a Páscoa. Portanto, possui data móvel, que varia entre fins de maio e início de junho. Este evento é mais citado no Novo Testamento do que no Antigo, uma vez que tem importância capital para a fé e liturgia cristãs: é em Pentecostes que ocorre a descida da Terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo, sobre os Apóstolos de Jesus, reunidos após Sua morte mas ainda despreparados para a missão evangelizadora que lhes caberia. É o Espírito que os inspira e os prepara, descendo sobre suas cabeças na forma de uma língua de fogo, a centelha do entendimento, o insight divino. É nesse momento que nasce a primeira Igreja de Cristo; do discurso de Pedro e do “dom das línguas”, adquirido imediatamente após a descida do Santo Espírito e que significa a capacidade de dirigir-se a todas as nações e ser compreendido por elas.

Esta festa cristã, no entanto, tem uma origem judaica: é o SHAVUOT, a festa das primícias da colheita do trigo. Uma festa agrícola à qual, depois, foi dado também um motivo histórico: é quando se comemora a outorga da lei a Moisés.

Seu significado simbólico cresce em beleza se associarmos o SHAVUOT à PENTECOSTES. Com o trigo faz-se o pão, alimento do corpo. Com as tábuas de Moisés faz-se a lei, alimento moral. Com o Espírito Santo faz-se o discernimento, alimento da alma. Belas e fartas colheitas, portanto!

Ao Brasil, a festa chegou com os primeiros colonizadores portugueses ainda no século XVI, e hoje se faz presente na maioria dos estados brasileiros, mantendo, em linhas gerais, os rituais medievais com os quais ela aportou por aqui. Acredita-se que a Rainha Isabel de Aragão, de Portugal (1271 – 1336), casada com o Rei D.Diniz foi a responsável pela difusão das comemorações em honra ao Espírito Santo e foi também quem lançou as bases da Congregação do Espírito Santo, um movimento de solidariedade cristã que foi, aos poucos, absorvendo as tradicionais festas pagãs. Ao que parece, as festas iniciaram-se com a construção da Igreja do Espírito Santo na cidade de Alenquer. O ponto alto dos festejos acontecia dentro do mais puro espírito cristão de igualdade e fraternidade, que unia os ricos e os pobres, sem distinção; era quando, por iniciativa da rainha, o bispo coroava um rapazinho da comunidade humilde, que se transformava em imperador por um dia, e assistia à missa solene, coroado e sentado em trono ao lado do altar, ocupando o lugar do rei. Nesta ocasião distribuía-se uma refeição à base de carne e batata, o “bôdo”, a toda a população do lugar. A comemoração espalhou-se pelo reino de forma semelhante ao cerimonial iniciado pela rainha, e, com a devida autorização, foram criadas coroas semelhantes a do rei, com os símbolos da Santíssima Trindade, para que os procedimentos em tudo seguissem os originais. Lá como aqui, mantiveram-se os elementos essenciais da festa: a coroação de um rapaz humilde durante a missa da véspera, o trono ao lado do altar e a farta distribuição de comida ao povo.

O Imperador, figura mais emblemática do acontecimento, deverá ser escolhido com alguns meses de antecedência e o ideal é que tenha entre 13 e 18 anos e que seja um pouco mais alto que seus Vassalos. Suas roupas serão confeccionadas seguindo rigidamente um modelo pré-estabelecido e idêntico às fardas da Milícia da Vila de Paraty no séc. XVIII.
A Procissão das Bandeiras é um marco nesta festa de Paraty: momento ímpar quando o fervor alia-se à uma beleza comovente. Todas as bandeiras são vermelhas e tem uma pomba branca no centro, que pode ser pintada ou bordada e, algumas vezes, possuem outros ornamentos também. No alto do mastro, sempre vai uma pombinha de madeira sobre um globo azul e a visão de todas aquelas pombinhas “voando” sobre um “mar” de bandeiras vermelhas, tendo como cenário as ruas e casa centenárias da cidade com suas janelas e portas decoradas, é contagiante. O vermelho das bandeiras segue a cor dos paramentos religiosos da festa de Pentecostes

A próxima Festa vai acontecer nos dias 29,30 e 31 de maio e eu vou levar um grupo. Mais informações:
tel:55(21)3150-3930
55(21) 7898-7376











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