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sábado, 22 de outubro de 2011

La Cocagne, A Cocanha, The Cockaigne,A Cocaína

"Este país não foi até o presente conhecido por ninguém, salvo pelos patifes e velhacos que o descobriram primeiro. Todos aqueles que quiserem render-se a ele, devem ser intrépidos e bem preparados para enfrentar grandes coisas porque, diante de si, estará uma muito alta e muito larga montanha de massa, através da qual eles deverão abrir caminho comendo antes de chegar no lugar, muito famoso e muito bem conhecido dos mal intencionados e dos que deixaram para trás toda a virtude e honorabilidade. Porque não há maior vergonha neste pais da Cocanha que se comportar virtuosamente, racionalmente, honradamente e com boas maneiras, e de amar ganhar sua alimentação com suas próprias mãos. Aquele que se mantem virtuosamente e honestamente é isolado de todos e, finalmente, banido do país da Cocanha".
Tradução livre de um texto em francês, originalmente publicado em flamengo na época de Bruegel, séc. XVI.

A Terra da Cocanha - Bruegel
Este mito da Terra da Cocanha surge recorrentemente, a partir da Idade Média, em épocas de extrema privação alimentar, de doenças e de pestes. Neste mundo imaginário, a fartura chega aos limites de um fastio nauseante e imobilizante, que obtusa os sentidos e aniquila as vontades. Pelo texto acima, depreendemos que o mito traz embutido um discurso moral: num tempo em que a maioria se debate entre a fome e a sobrevivência, os velhacos e patifes que habitam a Terra da Cocanha, são os que consomem sozinhos o que daria para saciar a fome de muitos, na ânsia compulsiva de botar para dentro, de guardar em si, e para si, o máximo de alimento possível.
mangual
 Bruegel, o Velho (Breda, 1525/1530 / Bruxelas / 9 de setembro de 1569), pintou uma imagem sobre o tema, em  óleo sobre madeira em 1567, que  hoje se encontra na München Alte Pinakothek. Nela podemos ver um camponês um cavalheiro e um letrado que estão prostrados no chão, embaixo de uma árvore, cujo tronco é circundado por uma mesa posta. Cada um deles  repousa a cabeça sobre uma base diferente: o nobre, em cima de uma almofada, o letrado sobre um casaco de pele e livros, e o camponês sobre um mangual ( um instrumento através do qual se malha cereais para debulhá-los.). O escudeiro, ao lado esquerdo, vestido com uma armadura, monta guarda sob as provisões e espera que algo lhe caia na boca aberta. À direita, vemos a montanha de papa sendo atravessada por alguém que a vai deglutindo para abrir caminho. As cercas são feitas de salsichas, os gansos aparecem já assados, os porcos, já prontos para serem cortados, exibem as facas no couro, e grandes tortas formam o que aparentam ser cactos.
Cockaigne - Vincent Desiderio
O mito retorna no início do século XXI, na obra "The Cockaigne" ( não por casualidade há semelhança fonética com Cocaine) pintada meticulosamente em óleo sobre uma tela de aproximadamente 4,60cm por 3,35cm, entre 1993 e 2003, que pertence ao acervo do Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Washignton, ( http://hirshhorn.si.edu/ ) , por Vincent Desiderio ( Philadelphia, EUA,1955).
"A versão de Vincent Desiderio é uma crítica ao que ele chama de "bulimia cultural" - nosso consumo compulsivo de imagens que só nos deixa mais famintos de mais imagens.É também um comentário sobre o procedimento da pintura no século XXI: diante de tal pletora de estilos e linguagens formais, como é possível criar algo novo, alguma coisa distintamente relevante ao nosso próprio tempo?"( por Bia Fineman do New Yor Times)
Enquanto alguns detectam sinais que a festa acabou, simbolizando o fim da pintura, Desiderio nega que ela carregue uma mensagem pessimista. "Eu pintei a terra devastada", ele disse, "transformando-a em  colheita." O próprio fato de que ele trabalhou tão longa e arduamente para criar a obra, sugere que a pintura está viva e bem. O trabalho em si já demonstra, ele observou, "o poder da pintura."  Desiderio fala apaixonadamente sobre o dilema enfrentado pelos artistas contemporâneos, confrontados por uma infinidade de estilos e linguagens,  frequentemente em perigo de serem oprimidos por tantas informações sobre arte. Desiderio afirma que há uma nova onda de interesse pela pintura, particularmente a pintura séria, porque" a pintura é um meio que ressalta a voz individual num momento em que a maioria das áreas de expressão são dominadas pelo tipo de estilização genérica ou manipulação genérica de materiais encontrados .... A pintura é um santuário para a voz individual, num momento em que a individualidade tornou-se tão manipulada como os materiais  que a maioria usa em arte hoje em dia." 

Ceci n'est ce pas une pipe - Magritte


Desiderio se baseou na sua própria coleção de livros de arte para reproduzi-los na tela. As escolhas de como eles apareceriam na pintura - em foco ou fora de foco, obscurecidos por sombras ou reflexos - foram guiadas por sua significancia para ele, ao invés de por uma percepção acurada. "Mesmo que esta cena realmente existisse, esta não seria a maneira como uma câmera a veria", ele disse.
O tampo da mesa inclinado com louça espalhada e restos de um banquete, relaciona-se de imediato à pintura de Bruegel, porém com uma tigela vazia ao centro, esse vazio do recém consumido. Ao contrário da Cocanha de Bruegel, estas tigelas não se tornarão novamente cheias. O que parece não ter fim é o mar de livros que rodeiam a mesa e que representam seis séculos de arte ocidental, como os restos de uma festa realmente grande. Nas páginas destes livros virtuais - ironia!- ele reproduz meticulosamente, em versões miniaturizadas, suas obras favoritas de artistas que, numa passada rápida de olhos, podemos identificar: Velázquez, Van Eyck, Ribera, Vermeer, Courbet, Whistler, Manet , Matisse, Henri Rousseau, Giacometti, Picasso, Magritte, Mondrian, Whistler, Cassatt, Gabo, Motherwell, entre outros.
Academy (detalhe do tríptico)- Desiderio
Cocanha, Cocagne, Cocuña, Cockaigne , Cocaine. Tudo nos remete à compulsão do consumo por imagens, comida, produtos, poder, grana, que desaba sobre nós num vórtice vicioso, cornucópia infinita de vanitas em que se trasnformaram as livrarias, os shopping centers, os condomínios, as escolas, os restaurantes,os mp3, os mp4, os computadores, os celulares e todas as suas parafernálias, as religiões e as miríades de informações.
" O Sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia?" , e o Caetano nem podia sonhar com tudo o que se veicula hoje. Ou como escreveu pra mim a Lena Amorim a respeito da obra do Desiderio: " Tanta oferta, tanta fartura, quanto muito! Quem consegue saborear e digerir? Fastio - doença do excesso."
                         

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